the optimistic

         (living in a glasshouse)

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

O Diário do Clima.




A primeira vez que tive contato com o trabalho da Sônia Bridi na série "Terra, que tempo é esse?" foi através de um dos melhores episódios da série: Veneza e Vanuatu (vídeo abaixo). Costurando muito habilmente visitas aos dois países de realidade tão distinta, porém tão igualmente próximos nos perigos oferecidos por um mundo em aquecimento (a subida de águas muito acima do que seria tolerável para a boa convivência), com entrevistas com especialistas e com engenheiros e cidadãos, Sônia e seu marido Paulo Zero (cinegrafista e diretor de fotografia da série) puderam expor com palavras e imagens uma das realidades mais duras do fenômeno do aquecimento global: a ampliação do fosso entre os que tudo têm e os que terão ainda menos.



Dessa forma, me interessei pela série e busquei assistir aos demais episódios. Viajando por cerca de 15 países, visitando locais e pessoas tão extremas quanto romeiros da Cordilheira dos Andes, fazendeiros no oeste da Austrália e um povo que mede sua riqueza pela felicidade no Butão, os dois conseguiram estabelecer um painel do que acontece, o que podemos esperar e o que pensam especialistas sobre o aquecimento global. A empreitada acabou virando um livro, Diário do Clima (Editora Globo, 2012) em duas versões: uma com o DVD com todos os episódios da série e uma versão simples, sem o DVD. Feliz proprietário da versão com o DVD, terminei minha leitura semana passada. Com um sorriso no rosto e um aperto no peito.

Combinando ciência e humanidade (será que ainda é possível dicotomizar essas duas coisas?), investigação científica e narrativa de viagem, Sônia te pega pela mão e com muito cuidado vai te levando por todos os lugares por onde a série passou. Das dificuldades às glórias, do planejado ao acaso, um panorama bastante completo é desenhado nas quase 260 páginas do livro. Enriquecido por fotos, a narrativa abre um sorriso ao escancarar a beleza de um mundo que, representado pelas palavras de Sônia, contradiz enormemente a ideologia dos que querem professar da sua diminuição, homogeneização ou banalização. Existe uma monotonia das paisagens contemporâneas? Não no "Diário do Clima".

Por outro lado, fica um pesar tão contraditória com a excitação e alegria que o livro suscita. Muito pouco ou quase nada vêm sendo feito para, ao menos, minorar a situação. Na verdade, como a própria conclui em mais de uma passagem no livro, quem mais tem dinheiro, mais poluiu e menos sentirá os efeitos. E aqueles (longe de qualquer maniqueísmo ou visão romântica) que sempre sofreram as consequências de um desenvolvimento desigual, afundarão ainda mais rapidamente na pobreza e na falta de oportunidades (alguns, literalmente, como os habitantes da bela e paupérrima Vanuatu).

Ao final, resta uma pergunta: será que valeu a pena?  "120 horas de voo em 48 trechos percorridos e 110 horas de espera em aeroportos (…), 27 horas de barco, 106 de carro, cinco de trem e seis montados em burros. A pé, foram mais de cem quilômetros". Num mundo em que o maior poluidor é também a mão mais generosa em buscar soluções, em que poluidores erguem fortes de concreto no oceano para barrar a água e populações sem expressão alguma no ranking da sujeira carregam pedregulhos com os braços também para aplacar a fúria do mar que se joga indiferente sobre ricos e pobres. Um mundo em que a Natureza dominada se revela cada vez mais arredia: escalar montanhas, realizar peregrinações, domar o deserto com plantações cada vez mais tudo que se fala é muito pouco para demonstrar o que ocorre. Toda imagem é pequena para demonstrar o que ocorre. Talvez, na combinação entre imagem e palavra a sensibilização se torne maior. A isso se presta o livro. E consegue.

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Eu.

Philipe

Campos - RJ

Ficção e não-ficção.


Leio:

Green Plastic
Omelete.
Cronicalidades.
Martini Seco.
Hel Looks.
Cafeína.
Cotidianidades.
Perto do Coração Selvagem.
Vida na Islândia.
Amor e Hemáceas.
Actions e Comics.

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|Não pense que te quero mal, apenas não te quero ma...|
|O criador e a criatura (não necessariamente nessa ...|
|Before Midnight (2013).|
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|La Science des Rêves|
|Would?|
|O dia em que o Professor X morreu|
|Divulgado o IDEB das Escolas do Rio de Janeiro|
|Pequenos feitos incríveis sem testemunha.|
|Sobre mulheres e meias-calça.|

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