the optimistic

         (living in a glasshouse)

domingo, 22 de março de 2009

we are accidents waitting to happen.

Sexta-feira, 20 de março de 2009. Praça da Apoteose, Cidade (nada) Maravilhosa, Rio de Janeiro. Depois da aventura de meados de dezembro com o show da Madonna, Radiohead + Kraftwerk tornou-se minha segunda incursão pelo mundo dos shows internacionais - e megaeventos. Para além do delírio de assistir ao vivo aquela banda que, dúvida alguma me deixa exitar, é a banda mais importante da minha vida, assisti a outro tipo de espetáculo: o do bom comportamento.

Minhas preferências musicais pouquíssimo gerais para o padrão brasileiro, somado a uma dureza crônica que acomete os que vivem as custas dos pais, pouco me permitiam freqüentar o metiê reservado aos espetáculos que de fato me interessavam. Na falta do que fazer e na inércia irritantemente bovina da adolescência, vez por outra me via envolvido em eventos gratuitos ou pagos - a baixo custo, lógico, mas todos eles via de regra populares. O ingresso na vida adulta (?) e as responsabilidades de gente grande também me legaram a possibilidade de poder pagar (ainda que não tão barato) e ver o que realmente quero.

Ainda assim, meu passado me legou um know-how de comportamento em eventos que acho difícil um dia apagar dos meus costumes, representados, mais expressivamente, pelo hábito de, quando em meio a grande público, girar os olhos a todo o tempo, para todos os lados, prevenindo contra qualquer tipo de casualidade que venha de qualquer direção. Know-how esse, que pude dispensar tanto no dia 20/03 quando em dezembro. Mesmo na minha curta vidinha, já presenciei atos dos mais banais, porém ofensivos (nudez pública, desrespeito a liberdade do outro, cenas escatológicas) até atos realmente graves (violência física e vandalismo, em linhas gerais). Cabe ressaltar: todos eles em eventos gratuitos e/ou populares. (Já me pergunto da necessidade de utilizar e/ou para relacionar gratuito com popular - me parecem sinônimos).

O fato é que depois de freqüentar dois eventos com públicos acima dos 20mil espectadores e não presenciar qualquer tumulto, confusão ou ato de violência explícita, me perguntei o porquê da diferença gritante para com os eventos populares. Ao comentar com as mais diversas pessoas sempre ouvia como resposta a inevitável observação de que "o preço do ingresso seleciona". Seleciona?

Tomando o caminho mais comum, me bateu uma vontade irresistível de ir ao dicionário e procurar o significado do verbo selecionar. Eis que encontro: "Fazer a seleção de; escolher, separar". Pois bem. E o que foi selecionado, escolhido ou separado? Um público bom de um público ruim? E quais parâmetros medem um público bom de um público ruim? Dezenas deles poderiam ser utilizados, entretanto, atenho-me a um em especial: o comportamento.

Dizem que antes do começo dos espetáculos do dia 20/03 houve empurra-empurra, corre-corre e algumas pessoas passaram mal, porém ao longo de todo o show nada disso foi registrado. Perto que estava do pronto-socorro, ocorrência alguma observei. De fato, até mesmo os médicos - aparentemente, sem trabalho - saíram de sua cabaninha branca e vermelha para conferir a piroctecnia britânica do Radiohead. No show da Madonna a dimensão do espetáculo (pelas minhas contas umas três vezes maior do que o Just a Fest) e a posição dentro do Maracanã em que me encontrava podem me ter diminuído o raio de perspectiva, mas combinando o que observei (dentro do estádio e no metrô) somado ao que ouvi de pessoas em outras partes do evento, posso inferir que nenhuma ocorrência digna de nota tomou lugar durante o show. Resta a pergunta: por que a diferença?

Desnecessário dizer que o alto preço dos ingressos (relativamente a outros tipos de diversão) certamente afastou segmentos mais populares. A questão aqui não é avaliar o porquê da diferenciação de público, mas o porquê do comportamente diferenciado.

Será que realmente viver sob condições mais difíceis, muitas vezes indignas, seja sintoma de baderna, confusão e vandalismo? Por que dessa necessidade de depredação física e moral? Algum tipo de necessidade de liberação de energias que só toma espaço quando existe a possibilidade de divertimento gratuito? Todas questões que parecem ter resposta óbvia: ao baixo nível econômico atrela-se o baixo nível de educação (formal e familiar). Ou seja: também outra questão, aparentemente, superada. Todavia, será que a pobreza econômica, cultural, educacional é realmente justificativa para comportamentos tão deploráveis? Ou será que por aqui, em geral, quando não se paga a conta não se sente a necessidade de emitir respeito?

Parece-me que o comportamente em eventos gratuitos segue a lógica que permeia nossa sociedade com relação ao que é público: o que é gratuito/público é ruim e não tem dono: dirime-se o usuário da necessidade de respeito e zelo. Em um país em que o que pertence a todos e, ao mesmo tempo, a ninguém é constantemente violentado em todas as esferas - dos governantes que superfaturam obras ao cidadão médio que armado do famoso "jeitinho" tira proveito de algo público - fica difícil esperar que mesmo quando a questão recaia sobre cultura o comportamente seja diferente.
Percebo a instalação de uma mentalidade de segregação: quem pode pagar se afasta do que é gratuito com medo de tudo e com preconceito sobre a qualidade; quem não pode pagar parece fazer pouco caso do que tem e para além do papel da liberação de energias e da miséria educacional no hábito de destruição, enxerga ali um momento para zombar do que é público e gratuito e manifesta, mais uma vez, a mentalidade de depredação do que é "de ninguém". Desse modo, esse tipo de comportamento seria apenas um espelho da mesma questão que explica a depredação de escolas públicas pelos próprios alunos, depredação de orelhões pelos usuários que deles mais necessitam, violência (principalmente verbal e moral) para com os prestadores de serviços públicos (faxineiros, motoristas, garis, etc).

Sinto-me cada vez mais inclinado a negar minha presença nesses eventos "populares". Primeiro porque se instala em mim uma idéia de freqüentar apenas o que gosto - ainda que não haja nada melhor para fazer e, como já disse nas primeiras linhas, muito pouco do que é geral em nosso país me interessa. Segundo que se abate sobre mim o medo. Medo não apenas de violência física, mas medo de conviver com a mentalidade tacanha da zombaria ao público. E isso não fere o corpo, mas fere a alma.

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sexta-feira, 20 de março de 2009

all we need is love (?).

Sigo me equilibrando entre tropeços, alegrias e passagens impessoais. Lembro a todo o tempo Rubem Fonseca quando ele diz que queremos ser amados até mesmo pelos nossos algozes. Será tão forte assim essa vontade em mim? Será que me esforço tanto por aceitação? A adolescência (e toda a carga de insegurança), por mais que esticada, há tempos esvaece, dia após dia, e, em seu lugar, a idade adulta aflora em seus aspectos mais prosaicos e mais práticos.


Não, não ofereço resistência ao passar do tempo. Apenas que ainda conservo em mim muito da pessoa que fui há sete anos atrás. Inseguro, procurando aprovação constante. Não sei se lido muito bem com a falha, com a rejeição. Sei que consigo esconder muito bem as frustrações, mas não sei se realmente as supero. Lembro, então, de um tempo em que sentimentos se avolumavam debaixo da pele e por medo os escondia. Sempre tive a intenção de ser meio super-homem - aos olhos do mundo. E o que ganhei com isso? Força? Acho que um pouco.

Ainda continuo nessa luta por dissimular tudo aquilo de que sinto vergonha de sentir. Até acho que ultrapassei um pouco a barreira do momento pueril em que as opiniões que possam recair sobre mim me atinjam com violência, mas ainda necessito aprovação. Tenho uma necessidade constante de olhar ao redor e ver sorrisos complacentes, mãos estendidas e congratulações. E nao seria essa necessidade, uma necessidade de ser amado? De certo modo, nao seria aprovação uma forma de amor? Lá no fundo, tudo o que precisamos é amor?

Observo as pessoas e vejo suas atitudes. Vejo tanta insegurança em todo o mundo. Tenho vontade de perguntar: onde você esconde sua insegurança? Porque é o que vejo em quase todos sem exceção. INseguraça. Que dias bandidos são esses em que temos medo de amar, de trabalhar, de criar, de se arriscar? Não percebo coragem naqueles que se atiram despudorados. Percebo despreendimento, talvez inconseqüência, mas jamais coragem.

Talvez, a insegurança seja combustível para atingir objetivos maiores; combustível para tentar com mais afinco. Entretanto, existe um ponto em que ela paraliza. Nâo, não paraliza ações. Paraliza ações que possam ser conhecidas por outros. Bate uma vontade de agir apenas no escuro, de fazer segredo das coisas que tento, fazer segredo dos meus defeitos. Seria tão mais fácil possuir duas faces: uma para ser exibida pelo mundo, outra para guardar tudo aquilo sobre o qual não quero que emitam opiniões. Não seria essa a face que Eleanor Rigby tenta esconder com a que guarda na jarra perto da porta? Ou o retrato de Dorian Gray que, trancado no porão, absorve o passar de todos os dias de sua existência pouco orgulhosa?

Não quero ser Dorian Gray ou Eleanor Rigby. Faz-se tempo de mudança e, curiosamente, começo a percebê-la em alguns aspectos. Em outros, me vejo a léguas de conseguir alteração significativa. Talvez com o tempo.

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