the optimistic

         (living in a glasshouse)

segunda-feira, 2 de abril de 2007

momento reflexão

"às vezes é melhor calar e ressentir".
(Poléxia)

não é?

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The Optimistic - 12:33:00 2 comments


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domingo, 1 de abril de 2007

Palmeiras Imperiais.

(Fiction)
"If I ever was myseflf, I wasn't that night".

Meses depois, ela ainda recordaria daquela manhã em que soprou-lhe o vento a morte de João. Parado sob uma grande palmeira que desajustada se encontrava na esquina mais distante que ele conseguia andar, uma grande folha se desprendeu e num mau acerto lhe derrubou ao chão. No impacto da cabeça sobre o meio-fio, foi-se embora a consciência e momentos depois as últimas nesgas de vida.

Passaria a andar todas as manhãs por aquela mesma esquina, na esperança de reconstituir - dentro de si - a cena que não vira. Apegada ao desespero da solidão que se deitava sobre ela, fazia questão de retrabalhar a cada dia, a cada momento esse sentimento corrosivo, numa estranha esperança de se punir pelo que de forma alguma tinha culpa. Acreditava, contudo, que a punição era a melhor - e talvez, a única - forma de alcançar a redenção. E assim seguia morosa por entre seus dias.

Enjoativamente preenchida por perguntas, deslizava vagarosa por entre manhãs intermináveis e invadia tardes quentes - e de quando em vez as frias também - num silêncio irritante. Todas as questões se debruçavam indolentes por entre os recônditos de sua mente. Questionava o mundo no(s) seu(s) girar(es) e ofendida se esquecia que jamais encontraria como fazer pará-lo para a contemplação muda que ela desejava. Mas havia perguntas. Demais, demais, demais. E as perguntas também faziam parte da punição. A inquietação queimava ácida no corpo e nada permitia além do silêncio. O duvidar perene não se encaixava - pois encaixar significaria fazer parte urgente e necessária - mas entrelaçava perfeita com a vida, seguindo por milhas e milhas a frente - entrelaçada.

O mesmo vento que soprou a moribunda folha sobre João, tratou de carregar seus vapores pesados de morte até ela. Diz-se que no meio daquela mesma manhã, sentada no espaço em que a sala termina e começa o corredor - já ñao se podendo divisar o que é mais sala do que ainda não é corredor, levantou o olhar para além do horizonte e disse em tom sóbrio "JOão se foi". Pouco entenderam e apesar da estranheza (pelo ato), preocupação alguma se abateu sobre ninguém. Afinal, a dubiedade da frase combinada ao inesperado e idiossincrático do acontecimento, trataram de encaminhar a interpretação para o mais banal: era fato que João havia ido, como todos os dias fazia. Também causou pouca estranheza que ela permanecesse sentada por todo o resto da manhã. Ocupados em suas disputas cotidianas e ordinárias, a menina de 20 e alguns anos pouca atenção despertaria sentada em silêncio.

A verdadeira estranheza viria quando a notícia (nem um pouco banal) da morte viesse bastante clara, sem duplas interpretações. Um leve esboço de tristeza assombrou-lhe a face, mas passou rápido (talvez também carregado por um vento qualquer) e as únicas palavras a serem escutadas foram: "eu sabia". Dito isso, foi-se ela para seu quarto e nesse dia nada mais puderam saber do que lhe passava por entre os pensamentos, ou das conseqüências profundas ou superficiais que o sucedido lhe abateria.

No final das contas, lhe sobrariam as lembranças. Sobraria aquele verde bem maroto que cobria muito do seu passado e acabava por revelar umas vontades, uns anseios e uma esperanças que mal cabiam na pequeneza das suas possibilidades. Arredia por conta de suas limitações, erigia um altar de fortaleza e fechava o que poderia ser visto dela própria em pouco, pouco, muito menos do que todos acreditavam ver. Vestia uma força; travestia uma coragem que era excessivamente falsa. Falsa, falsa, falsa demais, ela sabia. Ninguém sabia.

Então, veio a morte de João. Em si, não estava encerrada apenas a questão do partir, do vagar silencioso numa penumbra entre o que foi e o que era. Era muito mais que isso. Era o descortinar da vida dura. Era o mostrar do ordinário que infesta cada um dos cantilhos da pequena existência da menina. A morte de João era o fim das inocências, das pequenas alegrias que elevadas à condição de fim, voltavam-se agora como meios muito pouco suficientes para dar sustentáculo à grande dificuldade que se tornava viver.

Ainda hoje, é possível, vez por outra, vê-la por aí, vagando perto da palmeira e, dizem, até mesmo olhando silenciosa para qualquer outra que lhe apareça despropositada. Mas a vida continuou e João se tornou uma lembrança. Ainda que dolorosa, uma lembrança que a abrasão do tempo cada vez mais esmerilhava e tornava enfraquecida. O que nunca foi apagado, entretanto, foi o descortinar proporcionado por aquela morte. Desvelada a realidade, ela se adensava cada vez mais cruel.

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Philipe

Campos - RJ

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