the optimistic

         (living in a glasshouse)

domingo, 25 de fevereiro de 2007

Noites venezuelanas.

(Fiction)

Chego a cozinha e me abaixo para pegar outra caixa. Percebo, então, certa umidade e um cheiro estranho, nauseante, meio lactoso. Uma das caixa está estufada (vítima do calor estuporante, quem sabe?) e o leite demonstra um caminho percorrido por todo o armário. Dezenas, milhares de pequenas larvas brancas (tão brancas quanto o leite) percorrem dominadoras os fundos das outras caixas. Sobe o cheiro azedo. A repulsa me corroi os brios: as pequenas larvas chapinham nas poças de leite que restam quando a maior parte já secou, abandonando um reflexo esbranquiçado: uma tinta nojenta rasgando a madeira. Estico o indicador direito e milimetricamente rodeio uma das pequenas poças. Sobe uma, sobem duas, uma legião alva invade a minha mão. Meio abobalhado começo a cantar baixinho, quase uma canção de ninar. "Overhead the albatross hangs motionless upon the air". Ergo minha mão contraluz e tremem frenéticos os vermes dançando para o que canto. "And deep beneath the rolling waves". Procuro companhia desesperado e me encanto com a vida primitiva que cresceu à minha revelia nesse calor fevereiresco. "In labyrinths of coral caves". Um nojo, um asco se sobrepõem, invadindo violento, mas não me importo. "The echo of a distant tide comes willowing across the sand". Uma penitência uma imposição rasgada, dilacerante. O cheiro azedo já é perdido; quase invisível, quase inaudível. Um cheiro esbranquiçado - como o próprio leite. Um ruído branco - como o próprio leite. Entope minhas narinas, instala-se escandaloso no meu pulmão, alguns segundos e já não sinto mais o cheiro. "And ev'rything is green and submarine". Então é isso. E me perco no verdeazulclaroescuro submarino das cortinas com peixes sorridentes e glub-glub que enfeitam o banheiro estendido bem ao final do corredor. Há uma cadência no vaguear das larvas que já sobem pelo meu braço. Num impensado jogo minha mão torneira abaixo e deixo a água diluir maldosa a sujeira da minhas mão. Se esvaem meus momentos de companhia, de adormecer dormente no ninho branco das larvas, minha fuga corriqueira do pensamento obcecado. Então, retorna tudo. Os dias largados, as juras preguiçosas e verdadeiras, o passado rimbombante, os finais de tarde de telefonemas açucarados e completamente clichés. Retornam as montanhas, os finais, os dias, o começo, as mentiras os rostos silenciosos. Eu, o espelho e o rosto marcado. Num excesso (talvez) brutal de sentimento desce o choro. Choro aguado que o sal já correu para bem longe daqui. Resta o insosso, o sem graça, o vazio de açúcar, a ausência de sal. Apenas água, escorrendo imperiosa, majestosa, conferindo um tom de absurdo ridículo àquele homemdetrintaanos que um pretenso espectador veria do teto da minha cozinha. Quero enxugar as lágrimas e não consigo: o azedo ainda habita entre os sulcos dos dedos. Lembro das noites quentes e do espanhol fácil que fluía ligeiro entre os corpos também quentes. Lembro do cheiro de álcool que percorria sempre entre nós. Lembro, então, de nossa petulância destilando um português tão arrastado entre o espanhol dominante. Nossas noites venezuelas regadas a álcool e outros cheiros igualmente exóticos e estranhos. Penso, relembro e me torturo com as noites antigas. Passa-se muito e o pensamento se retorce nos labirintos da obsessão. Nas minhas digressões me perdi do cheiro do azedo e agora vem o leite novamente e novamente azedo.

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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Olha só...

Seguinte: a partir de agora qnd for um simples texto refletindo meu umbigo eu não falo nada. Qnd for um dos meu contos eu coloco o selinho (Fiction). Só para evitar confusões. E pq em inglês? Eu adoro aquela música do Belle And Sebastian, Fiction, hehehe.

Combinado, então!

The Optimistic - 23:07:00 0 comments


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Palavras Abafadas

(Fiction)

De todas as lembranças que lhe restariam, ficou forte a imagem do último copo, que esvaziado a pouco menos de dois dedos, foi tomado de suas mãos e numa velocidade que insurgiu sentimentos de estranheza, foi virado num ímpeto impensado. Talvez para conferir a pressa e a urgência que os atos deveriam ter. Para que tudo ocorresse antes que os respingos de sanidade ardessem violentos e abrissem os olhos, finalizando o desvario antes mesmo de completo.

Despiram-se e de suor mancharam o sofá vermelho. Duas gotas corriam na fronte dele e escorregaram velozes até descer pelo queixo e respingar aninhando-se entre os seios dela. Antes mesmo que tentasse falar, ele lhe tapou a boca e pronunciou autoritário: "Espera. Há muita coisa que você precisa dizer. Eu sei. E sei também do que é que você tem para me falar. São coisas que também quero te dizer, mas não vejo porque saírem assim, agora. E se são coisas que já tenho aqui comigo, seria apenas repetir e disso já não precisamos".

Continuaram, audaciosos, rasgando a noite em pedaços e descobrindo muito mais coisas que jamais salientaram aparecer. Desdobraram lençóis e puíram muitas fronhas esmagando com o silêncio as palavras que foram abafadas pelas mãos dele.

Para ele, ali, naqueles momentos, ela era fruto e ávore. Uma folhagem bruta e grosseira, rasgando ácida, arrebentando-se em folhas e renascendo no labirinto de curvas e ângulos em que ele havia se transformado. Se no começo da noite ela era semente empoeirada, negada do direito de florescer, agora era fecunda no solo fértil que ele havia, enfim, libertado. Vibrava por dentro, ressoava uma felicidade por tanto tempo contida. Era a redescoberta inesperada de um amor que julgava apagado, borrado e embolorado pelo varrer silencioso de sentimentos que o tempo propiciava.

Ela, por sua vez, se entregava por inércia e covardia. Cravavam-se lâminas de culpa em sua mente. Sabia que não era isso, que não era para ser assim. Ali chegara aberta a um novo desdobrar, a uma conciliação certeira. Mas subetida ao amendoado do olhar dele, sentiu-se nua e desbravada na sua imperfeição. Estava exposto claramente: ela o amava, mas não podia continuar. Queria chorar e sentia seus olhos faíscarem no escuro. Culpa, culpa, culpa. Queria estraçalhar a mão dele que apesar de vagando por seu corpo ainda lhe cerrava a boca. Era tarde e já estava entregue completamente.

Na manhã seguinte no que sua boca se abriu liberta e as palavras anteriormente interditas conquistaram liberdade, seu corpo obliterava a luz que mordiscava os retalhos da janela. Era lúgubre, era fúnebre, era o dobrar de sinos da morte já tanto anunciada e de agonia prolongada daquele amor. Entre dois cigarros e uma única mordida numa maçã, as palavras abafadas da noite anterior saíram sem uma única lágria ou brilho significativo do olhar. Apenas um ato mecânico, uma necessidade física, um movimento de sinceridade.

Quando ela saiu, carregando não mais que a si própria e sua sinceridade o ouviu gritar do templo de sua raiva: "não deveria se sentir o amor assim". E riu amarga, porque há muito que muita coisa não deveria ser assim. Então, se arrependeu, mas já era muito tarde para quaisquer outras palavras. E foi-se com mais palavras abafadas.

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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Vai fazer o que sábado a noite?

Não é algo muito profundo, mas esse trecho mereceu um grifo:

"Eu odiava quando as pessoas expressavam suas perguntas dessa forma, perguntavam se tinha planos antes de dizerem o que tinham em mente" (Lauren Weisbergber em O diabo veste Prada).

Eu achava que era a unica pessoa da face da Terra a perceber como isso é inconveniente. (Eta, umbiguismo!) Sempre tenho o cuidado de primeiro fazer o convite e depois perguntar se a pessoa tinha algo planejado para o dia. Sempre gosto de dar chance de dar uma desculpa mais elaborada. Porque, sinceramente, é óbvio e ululante: nem sempre a gente recusa por estar ocupado. Gostaria do mesmo tipo de consideração.

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The Optimistic - 02:10:00 1 comments


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sábado, 3 de fevereiro de 2007

As pessoas bidimensionais

Talvez seja problemático e até perigoso, mas eu tenho uma dificuldade em compreender certas incompreensões (gerando até uma situação irônica, hehehe). Sinceramente fiquei meio estarrecido quando ao descrever uma relação "terminando no gerúndio" (sabe quando ainda não acabou, mas já não é mais?), recebi como resposta um: "Isso não existe. Ou acabou ou não".

Então, me lembrei de tempos atrás quando ao descrever outra situação, me olharam estupefatos porque alguém havia terminado com outro alguém preocupado em estar gostando menos e levando as coisas menos a sério. NOvamente, "isso não existe".

Dessa última vez fiquei a pensar que é meio estranho ver a vida assim, tão simples. Apesar de parecer título de um filme de ficção científica dos anos 70, as classifiquei como as pessoas bidimensionais. É como se estivessem enxergando apenas em 2D e quem consegue ver outras coisas tivesse o privilégio do 3D.

Talvez não seja um privilégio tão grande assim essa terceira dimensão das complexidades. Não queria acabar recaindo na mais cliché das discussões filosóficas de botequim, mas acaba sendo uma questão de "ignorance is bliss" (or not). Fico mesmo no registro da meu espanto.

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Eu.

Philipe

Campos - RJ

Ficção e não-ficção.


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Green Plastic
Omelete.
Cronicalidades.
Martini Seco.
Hel Looks.
Cafeína.
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Perto do Coração Selvagem.
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