the optimistic

         (living in a glasshouse)

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Comentários

Seguindo o que tem sido o maior tesão de minhas férias: cinema-chá-internet-chá-cinema, hoje assisti três filmes. Praticamente na seqüência. "21 gramas" (que reassisti em casa), "Eragon" e "O amor não tira férias", no cinema. Breves comentários:

21 Gramas: Na expectativa por BABEL revi 21 gramas. Lindo. Sofrimento quase palpável. Permeia o filme todo uma dor que não tem momento de explosão. Num conceito pessoal é como um "ruído de fundo": está ali o tempo todo, às vezes aumenta, por horas diminui, mas está sempre ali. Dessa vez Maria, a esposa do ex-presidiário Jack chamou minha atenção. Não é a melhor interpretação do filme (que continuo creditando à Naomi Watts), mas é de longe a personagem mais interessante. Ela parece ter uma frieza que apenas o passionalismo dela poderia lhe legar. Incoerente? Não. Simplesmente que nos momentos de caos ela é quem consegue conduzir a família de modo a evitar o desmoronamento. Nem me atrevo a falar mais. Só assistindo para saber. E confirmei: um dos meus favoritos de todos os tempos.

Eragon: Poderia resumir minha fala dizendo que cochilei duas vezes (por uns dez minutos cada) ao longo do filme. Mas temos aí o atenuante de que por motivos de horário soh consegui pegar a sessão dublada, o que deixou o filme nem com cara de Sessão da Tarde, mas com cara de um episódio versão extendida de Xena - A princesa guerreira.

O Amor Nâo Tira Férias: Não vou dizer que foi surpresa, pois já esperava algo de bom depois de ter visto o trailer. Mas foi bem mais. As realações mostradas no filme foram quase um catálogo. Diversos pontos interessantes e personagens para refletir depois. Previsível? Muito! Mas, e daí? É uma delícia assim mesmo!

The Optimistic - 02:26:00 2 comments


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Constatação.

Hoje não foi um dia triste. Mas foi menos feliz.

The Optimistic - 00:32:00 0 comments


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sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

O intervalo de um sorriso.

Sei que não é muito inteligente ficar remoendo as coisas assim. Ficar macerando as folhas, ficar esfregando o dedo em cima do arroxeado ou até mesmo ficar tirando a casquinha do machucado. Mas, olha só, veja bem, me entenda, sabe aquela coisa horrorosa? aquela cicatriz, aquela verruga, aquela deformação, aquela coisa feia que sempre está no rosto de alguém? Existem essas coisas que exercem uma atração na gente - apesar de horríveis. A atração que algumas coisas repulsivas têm o poder de causar. Paradoxal. Tanto quanto quando a gente busca o que dói. E fica lembrando e correndo atrás e procurando cheiros e músicas e livros e sons e dias e lugares e roupas e qualquer porcaria que lembre. Um lembrar bem assim no intransitivo. Sem objeto. Lembrar e não lembrar a.

Então, isso tudo me traz aquele dia que passou ontem no final da tarde. Porque o final da tarde foi um dia inteiro. Vinte e quatro horas grandonas, densas, pesadas. Todas elas no indefinido entre a tarde e a noite.

Eu passava distraído. Afetadamente distraído. Era certeiro abaixar a cabeça, procurar algo que nunca encontraria na mochila ou inventar conversas imaginárias ao telefone somente para ter o foco de minha atenção a quilômetros, milhas, continentes de distância dela. Ela gritou. Talvez apenas falou um pouco mais alto. Mas foi estupor. Foi grande, foi barulhento, foi coisa demais.

Fechei o telefone, girei os calcanhares e forcei os olhos contra o sol que caía lá atrás dos prédios. Um "oi" meio sem graça, um aperto de mão efusivo do lado de lá e uma certa vergonha por aqui. Acho que fiquei tonto. E não entendi muito bem tanta intimidade: tirou a chave da minha mão esquerda e falou que o carro era meu, eu dirigia, mas hoje (ontem) iríamos não sei aonde. E volta a chave para a minha mão direita.

Nem sei bem o que me moveu. Era uma bola de bilhar que depois da tacada seguia inexoravelmente seu curso. Como a bola meu futuro era chocar. Bater certeiro e sair por aí rodopiando atordoado até parar desolado, magoado, trincado, lataria meio arranhada, orgulho meio despedaçado, visão meio embaçada ou qualquer outra avaria não prevista. Fazer o quê?

Lá fomos nós. Entramos. Sentamos. Esperamos. Silenciamos. Bebemos. Não dissemos. Não olhamos. Não conversamos. Envergonhei.

Olhava o perdido. Observava a aleatoriedade browniana da poeira vadiando ao sol. Fachos, restolhos, migalhinhas do sol - coitadinho - sem majestade. "Being a rebel's fine all the time", cantarolou baixinho, como que por reflexo, movendo os lábios automaticamente. "You go all the way to being brutal", continuei sorrindo. Girou o dedo no seu suco e sorriu de volta. Me senti idiota, escroto, vazio, desesperado, acuado e queria ir embora. Perguntei e sentia porejando o suor nos cantos do meu cabelo:

- Então, o que foi?
- Nada.

Idiota, escroto, vazio, desesperado, acuado e queria ir embora. Mais que nunca.

Lembrei Jose Gonzáles: "my moves are slow". Não era o caso. Não havia movimento. Havia um nauseabundo silêncio, uma inércia desavergonhada, uma vagabunda atmosfera de tranquilidade, uma intimidade tão artificial que soltava tinta e retinia a cada segundo, trincando violentamente, rachando e despedaçando. Idiota, escroto, vazio, desesperado, acuado e queria ir embora. Me sentia meio nu sentado ali. Bebendo aquele vinho de tristezas. Aquelas uvas que de tão amargas me eram vinagre.

O silêncio permanecia. Entranhava nas nossas roupas, manchava atrevidamente nossas camisas e arranhava minha garganta. Atingi massa crítica e minha explosão foi serenidade e bom senso. "Vamos embora"?, perguntei. A aquiescência veio em forma de um aceno com a cabeça.

Levantamos. Saímos. Entramos. Silenciamos. Não dissemos. Não olhamos. Não conversamos. Acendi um cigarro. Fartei-me. E meio assim escapulido, meio planejado, meio incontrolado, não resisti e derramei sinceridade. Errei em minha honestidade.

- Você continua linda.

E então ela sorriu. Mas não foi aquele sorriso longo, boca aberta, mostrando todos os dentes, luminoso, irradiando luz ou qualquer outra coisa cliché dessas descrições. Foi aquele de canto de boca. Meio envergonhado, meio lisonjeado, meio indefinido, como as vontades dela. Chamou-me, então, "bobo". E doeu fundo. Porque o sorriso já não era mais vergonha, lisonja ou indefinição: era pena. Pela primeira vez, fui infeliz durante o intervalo de um sorriso.

Traguei o cigarro. No que expirei, aprofundei o cinza da cidade que diminuía no vidro de trás. Como se nada entendesse continuava a me olhar. Os olhos faiscando. Traguei mais uma vez. Dessa vez senti o cinza espraiar dentro de mim e, por fim, expirei apenas fumaça branca. Vadia, vagabunda, um desenho animado. Vadiava entre nós a fumaça, meandrando nossos corpos. Joguinho tolo de esconde-esconde. Ecoava em mim o meio-elogio: "bobo". "É. Talvez um pouco". E sorri acinzentado.

The Optimistic - 22:04:00 0 comments


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domingo, 17 de dezembro de 2006

Vulgarizada pelo verão

- Oi.

E seguiu assim: lenta e suave, deselegante, mas tentadora, adocicada, farfalhando a saia do vestido que roçava na bolsa de palhinha colorida. Estava meio prostituta, meio puta, meio desfalcada em castidade. Coitadinha. Estava meio vulgarizada pelo calor e transbordava com os maus olhares que a cobriam. Coitadinha. Vulgarizaram-na.

Mas disse "oi" e foi custoso lhe sair esse "oi". Afetado, rouco, transformado, transtornado de vergonha. Em todas as noites em que estrelava, quase dormente de tanta apreensão, o seu papel de traída o que mais lhe embaçava o espírito era ensaiar o reencontro. Olhar os vizinhos, os amigos ou os filhos era fácil. Os olhares condescendentes e os tapinhas camaradas eram certeiramente acolhedores. Alvíssaras, coroas de flores e palmas para o espetáculo inconcluso. Em todos esses podia confiar. Mas dentro a muldidão de olhares incendiados, incestuando a fraternidade da curiosidade e a indiferença, havia dois olhos perfurantes. E esses não lhe cortavam ou a dividiam em duas, mas a embaçavam. Engoliam o viço e a reduziam ao pó. O mais difícil era recuperar a visibilidade. Isso tudo ela sabia mesmo antes.

Então, ensaiava o reencontro. Dias adentro, noites afora. Uma resignação que a cegava, ensurdecia, emudecia, animalizava, tirava a razão. Entretanto, foi-se. Os ventos de final de verão trouxeram chuvas, mudaram os pensamentos, trouxeram ventania de mudança. Esqueceu-se, parou de ensaiar. Virou passado.

As três horas da tarde de um dezembro abestalhado, sob o calor estuporante do verão que apenas a vulgarizava, dobrou uma esquina sem muita convicção. Dois crediários das Casas Bahia, a bolsa de palhinha, os sofás vermelhos sujos do café que ainda não limpara: tudo arremessado ao mais distante, inatingível e esparso limbo. Formigando, formigalhando, frangalhando, despedaçada de chofre a realidade. Silêncio mortal as três horas da tarde de dezembro. Apenas um "oi" e um olhar baixo. Quase um pedido de desculpas. Emergiram do enevoado e emudecido estupor os sons de uma tarde de final de ano. Meio alheia, foi-se enuviada.

Dois meio-atropelamentos, um quase-tropeção, um meio abraço numa árvore que aimeuDeusdocéu, eu me caio. Sentou-se num boteco. Ovo colorido, copo sujo, cachaça com raiz, bigode e toalha de mesa no ombro. Um copo d'água por favor e não sabe como, desvelava sua história, cinco minutos depois.

Com a voz embargada sentiu a mão pesada em sua coxa e, coitadinha, mas é um cachorro. E sem pensar viu escapar pela sua boca: quando se é traída, a vontade é trair. COm qualquer um.
Meia hora depois e do meio de suas pernas subiam e desciam coxas ainda muito estranhas. E ao final restou o ranger do ventilador de teto. Abraçada a um lençol sujo, chorava sob a respiração pesada de quem nem conhecia. Estava vulgarizada e sabia que a culpa não era do verão. A raiva que até ali não se permitira sentir veio aos borbotões, transbordando, escaldando sua pele quente, evaporando em voláteis sulfurosos, tóxicos, venenosos. Envenenando-se dessa raiva, sabia: ele a vulgarizava. Sempre. Desde a primeira vez.

Levantou-se e com a pele suja foi-se embora. Sentindo-se meio prostituta, meio puta, meio vulgar. Mas agora sabia: não era culpa do verão...

The Optimistic - 00:03:00 1 comments


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sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Gris, blues e amarelo.

Azul é uma cor, assim, meio banal. E tem essa coisa do celeste. Olha ali pra fora. Viu? Azul celeste. O azul escuro é mais sério. Talvez daí atribua esse exotismo tão comportado. E tem aquele quadro ali. É, aquele ali. Viu? Azul. Celeste. Eu não entendi muito bem porque você ligou. Ora, têm todos esses quadros. Claro, claro. Muito bonitos. Particularmente o que tem o fundo azul. Sim... O celeste. Mas a verdade é que precisava fazer uma hora para esperar uma pessoa. Achei um bom lugar. Não, não. Claro que você foi o motivo principal. Você que me ligou primeiro. Só estou aproveitando o tempo. Enquanto converso com você espero. Só gostaria que você fosse embora um pouco antes. Não, pelamordeDeus. Não estou com vergonha que me vejam com você. Só acho que não cabe mais. Você. É. Você não cabe mais. Não foi por isso que me chamou aqui? Para tentar caber de novo. Então... O primeiro passo é dizer que você não cabe mais. Depois de todo esse tempo? Olha só. Lembra daquela música? Assim: "eu ria tanto desses nossos desencontros/mas você passou do ponto/e agora eu já não sei mais". Porra. E daí que eu canto mal? O que importa é a música. Entendeu a mensagem? Claro, você só entende quando quer. Eu sei. Eu que atendi o telefone. Sim, está correto: poderia ter ignorado. Mas eu não sou assim. Não acho que estou te dando esperanças. Estou deixando bem claro. Tudo muito azul, sabe, assim? Azul celeste? E daí que azul é tristeza? Azulando, azul... Tanto faz. Traz clareza e é o que a a conversa da gente precisa: clareza. E, vem cá, quem disse que não há tristeza? Tem um azul, um blues, um cinza. Sabia que para os espanhóis a tristeza é cinza? Gris. Você deixou as coisas meio cinzas. Gris. Tem mais cara de tristeza. Cinza. Você ainda pergunta o porquê? Tem de ter dignidade, porra. Sim, dignidade. Se nao vira tristeza. O fim é digno. Lembra aquela outra música? "Para que mentir/Fingir que não acabou/Tentar ficar amigos sem rancor". É tá certo. "Fingir que perdoou". Ta, tem exagero. Prefiro o "não acabou". Mas acabou. Entendeu? Fingir que não acabou. "Tentar ficar amigos". Não existe. Deixa tudo meio assim, meio cinza. Meio nublado. Quarta-feira sem sol. É, é isso que estou tentando te dizer. Tentando, não. Dizendo. Pelo telefone? Não seria decente... Negativo. Eu gosto, gosto muito. Acho que tem mais beleza. Sim, beleza. Não acredito que você está perguntando isso! Veja os quadros! Esse fim é quase um presente. Pra você... Eu sei, ironias às vezes são difíceis. Não, não sei. Sei lá. É, a vida é meio irônica. Quase sempre. Mas... Espera! Amarelas. Talvez, sejam amarelas. É, é isso. As ironias são amarelas.

The Optimistic - 12:14:00 1 comments


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quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Dialética

Não gosto de postar textos alheios, mas esse é mt bonitinho. Até pelo título!

Dialética

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...

Vinicius de Morais

The Optimistic - 09:49:00 1 comments


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O ano em que meus pais saíram de férias


Ok. Eu queria fazer um post lindo sobre "O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias". Queria falar o quanto gostei da câmera indireta, o quanto me perdi tentando achar significado para essas imagens vistas pelos espelhos, pelos vidros rachados, párabrisas, gradis e tantas outras coisas. Queria falar dos atores, da Simone Spoladore linda, do guirizinho encantador. Queria falar que pela primeira vez o futebol soou interessante. Queria falar que as insinuações, a sutileza, as coisas não ditas, os simbolismos das palavras e das imagens dão leveza ao que é bruto. Também queria dizer que, literalmente, chorei o filme inteiro. Mas basta dizer:

- Puxa, que filme lindo.

The Optimistic - 00:47:00 1 comments


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domingo, 10 de dezembro de 2006

Conto de Natal

Escovando os dentes setniu uma inquietação genuína. Entre o subir e o descer das cerdas da escova, sentiu uma necessidade de sair, andar, pôr-se para fora. Não era vontade: era necessidade.

O zelo com a aparência continuava preemente. O rosto agora marcado, o zigue-zague de fios brancos na cabeça e as unhas de esmalte solto lhe desmentiam o zelo. Era necessidade. Quando as luzes apagavam, o dia de trabalho se ia ou o último cliente batia a porta, tudo o mais se resumia a um verbo: esmaecer. Era um desmaio, um empalidecer, uma esfera inconstante sob os tique-taques enervantes. Eram os versinhos infantis, as marchinhas de libido inocente, os velhos boleros de erotismo um tanto ultrapassado. Era o batom meio apagado o pó-de-arroz e o rouge um tanto exagerados. Era sombra. Sombra do próprio passado. De um tempo em que o zelo com a aparência era verdadeiro; muito, muito tempo antes de se converter em mera formalidade.

Nas noites em que sozinha (cada vez mais freqüentes) arranhava a pele nos lençõis, que somente a si pertenciam, desconhecia a razão para a pele se machucar tão facilmente. Não sabia se passar dos anos e os suores que lhe empapavam o corpo, ofssem os seus ou fossem alheios, se o esetremecer por vezes mudo, por vezes escandalosos de estranhos que seriam seus e somentes seus, eternamente naquela noite, eram os culpados pelo embrutecimento dos tecidos. Tentava se enganar que o problema era dos lençóis. Quando no seu íntimo estridentemente se repetia: "foi a pele que afinou".

Nessas noites, sob o lençol de milhões de pequenas navalhas, que seu coração batia dor. Doíam-lhe sístoles e diástoles. No estremecer dos pés, ressoava pelo corpo infelicidade, uma convulsão dolorida que gritava compreensivelmente por conforto. Gritava lá por dentro dela que num inexplicável acesso de auto-piedade se permitia apenas um gemido. E a voz fraca não lhe permitia mais que um "ai".

Era infeliz.

Mas naquele dia não havia vontade. Sobrepunha-se a necessidade. E para atendê-la que o zelo retornou.Pós-se linda, tão linda quanto ainda ousava ser. Então, saiu caminhando sem entender os motivos da necessidade, mas ainda assim satisfazendo-a.

Foi parada no sinal que viu a menina no banco de trás do carro branco. Gordinhas de pele escura tinha um olhar esfumaçado, perdido num nevoeiro que lhe cobria a fronte. Seu vestido branco e as asinhas na mão denunciavam: era um anjinho. Talvez de um coral, um presépio vivo ou uma dessas peças de natal. Que importava? Era uma njinho. Se sobrepunham elemneots que se negavbam: a candura da veste e o acabrunhamento do olhar. Do aldo de fora do veículo riu-se do insul-film: era o opaco que cobria os olhos da garota, o opaco das ilusões que ainda poderia ter.
Continuava a rir distraída quando o sinal abriu e a (provável) mãe do banco da frente acelerou indo embora, continuando alheia ao anjinho enevoado do banco de trás.

Assim continuariam as três: no seu riso, no seu acelerar e na sua névoa até a afrente do carro ser arrastada em violenta colisão. O sangue respingou no alvo da túnica da garota, mas era sangue alheio que nem mesmo arranhara o braço.

Na multidão que se juntara ela, escandalizada, não via a mãe desfalecidade no banco da frente. Seus olhos procuravam o brilho furioso que o sol do meio-dia e alguma coisa provocava na garota, já fora do carro.

Ninguém ouviu quando disse: "é minha sobrinha" e hipnotizados que estavam pelo sangue da mãe, ninguém a viu puxar a garotinha pelo braço. PEnsou claramente: "é meu anjinho enevoado. Deve ser só o Natal". E perdeu-se por entre a multidão, levando aquele brilho enfurecido e respingado em vermelho todo para si.

The Optimistic - 22:38:00 0 comments


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terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Volver

Falando de "Tudo Sobre Minha Mãe" lembrei-me que tinha um post prontinho sobre "Volver", última cria do Almodóvar. Se perdeu. Apenas mais um desses posts que tenho assim prontinhos na cabeça, concebidos na cadeira da sala de cinema, no couro rasgado dos ônibus velhos ou no atravessar de uma esquina e outra. Depois dessa perda resolvi que não mais os perderia, principalmente os pequenos e de formato acicular, aqueles mais pontiagudos (que saem pequeninos como cristais apressados) e que têm uma ferocidade singular. Não perderei nem mesmo esses: minha antiga cardeneta de saídas de campo de Geologia virou caderno de apuntes.

Do que me lembro do post de "Volver" era do que comentava sobre a cena da canção. Lembro-me de que ali era para ter saído um choro, uma lágrima ou um turvar, mas não saiu. O soco na cara, o estômago embrulhado, o estupefamento e o assombro foram maiores. Era uma beleza doída. Um sentimento que saía verdadeiro dos olhos amendoados de Penélope. E senti uma ponta de orgulho justamente pelo que partilho com Almodóvar, com a Penélope e até com você (já que me lê em português): somos latinos. Não há outra explicação que não o sangue quente, o desvario, o desatino. QUe mesmo o mais comedido de nós ainda resguarda, nem que lá no fundo.


"Volver" é sobre mulheres. Sobre seus tapas, seus choros, seus risos e todas aquelas coisas que elas entendem. Que ninguém se confunda: mas é sobre mulheres latinas. Ali na tela vi minha mãe, minhas tias, minhas primas, minhas amigas e, até mesmo, as Marias e Joanas que andam circulando anônimas por aí. Uma força meio estranha a qual não se permite o tempo de chorar. O apego a tradições que, talvez arcaicas, lhe trazem força e conferem indetidade. Um caráter que pode parecer meio torto por certas vezes, mas que não se confude.

E o vento? Impossível sair da sala e não andar por aí culpando o vento. Andar por aí querendo sentir o vento bater no rosto e dizer para dentro: "é culpa do vento". Vá lá. Talvez, estejam certos: o vento que enlouquece. Vento, vento. É só o vento.

No final das contas resta a beleza que essa ninguém apaga.

The Optimistic - 22:40:00 1 comments


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segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Tudo Sobre Minha Mãe

Manuela y su hijo, Esteban

Hoje assisti ao "Tudo Sobre Minha Mãe". Pela terceira vez. Esse filme não fugiu a regra do que ocorre sempre que assisto un film de Almodóvar: de início acho um bom filme, porém nada demais. Ao longo dos dias seguintes parece que vou processando, internalizando absorvendo o filme e, mesmo sem vê-lo outra vez, passo a achá-lo maravilhoso.

Então, que dessa vez o filme acabou me perturbando. Fiquei boas horas do meu dia com ele na cabeça. Meio acabrunhado mesmo. Vários detalhes novos foram surgindo e o mosaico de relações, a teia de acontecimentos pareceu cimentada com uma coerência e complexidade ainda maior. E claro a beleza do filme explodiu mais forte.

No entanto, creio que o que me deixou realmente impressionado foi a atitude da Manuela (Cecilia Roth) em determinado momento. Quando descobre que "Um Bonde Chamado Desejo" está em Barcelona, logo vai assistir à peça. E mais, faz questão de procurar Huma Rojo (Marisa Paredes) no camarim.

Óbvio que a peça lembrava a seu filho morto e principalmente a própria Huma, uma vez que ele morreu tentando conseguir o autógrafo da atriz. Então, por que ir atrás de algo que lhe traria lembranças de dor e sofrimento? Esse foi um pensamento que me veio logo a primeira vez que vi o filme. Hoje, no entanto, foi um pouco diferente.

Continuo sem entender o porquê de ter feito isso. Hoje, constatei que nem ela deve saber. E mais: me impressionei de modo bastante subjetivo. O que me veio a cabeça foi: "e eu? também não tomo a faca, enfio fundo e giro, várias vezes?".

To até agora tentando entender isso. Será que é a vontade da verdade por mais cruel que seja? Será que pra exorcizar os demônios só mesmo trazendo-os à tona? Remoer as feridas acaba, com o tempo, por cicatrizá-las? Afinal, racionalmente é bem estranho...

Um último comentário, dessa vez me foi evidente o contraste entre a mãe da Rosa (Penélope Cruz) e as demais personagens. Havia uma relação de maternidade entre quase todos ali. Contudo, a única mãe de sangue foi a que jamais teve qualquer atitude de mãe para com a filha. Fica bem claro quando ela pergunta: "o que quer que eu faça agora?" e (tristemente) resignada Rosa responde: "nada, mamãe". Quando na verdade seus olhos dizem: "quero que você seja minha mãe".

The Optimistic - 22:11:00 0 comments


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domingo, 3 de dezembro de 2006

Aliás...

Começa minha angústia (tão gostosa!) de final de ano.

Qual vai ser a primeira música de 2007?!

Aceito sugestões. Meu futuro depende disso!

The Optimistic - 01:47:00 0 comments


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2006

Se minha vida fosse realmente um filme indie bem agora, nesse dia, nesse minuto 2006 encerraria em fade out para o preto ao som de "Everybody's Gotta Learn Sometime" do Beck. Depois de quatro segundos de silêncio mortal em tela preta, no canto direito se leria "2007" e então veríamos eu. Na praia completamente deserta as 06:30 a.m. dançando ao som de "No Rain" do Blind Mellon.

Sinceramente?

Apesar de no final das contas ter sido saldo positivo, 2006 já deu o que tinha pra dar.

The Optimistic - 01:35:00 0 comments


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Eu.

Philipe

Campos - RJ

Ficção e não-ficção.


Leio:

Green Plastic
Omelete.
Cronicalidades.
Martini Seco.
Hel Looks.
Cafeína.
Cotidianidades.
Perto do Coração Selvagem.
Vida na Islândia.
Amor e Hemáceas.
Actions e Comics.

Recentemente:
|Algumas notas sobre música.|
|Go, Spidey!|
|A quem interessa o meu umbigo?|
|Tempo.|
|Se arrependimento matasse...|
|O Diário do Clima.|
|Não pense que te quero mal, apenas não te quero ma...|
|O criador e a criatura (não necessariamente nessa ...|
|Before Midnight (2013).|
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