the optimistic

         (living in a glasshouse)

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

Das religiões mecânicas

"Then someone will say what is lost can never be saved".

No que meticulosamente treino como é o sentir do sabor (que sei adocicado) vou me perdendo e viciando. Viciando em desabar inerte, nu e completamente transparente a você. Implorando perdão, pedindo passagem, mendigando atenção. Um rastejo sem chocalhos, uma vida assim verde-amarelada, verde-amarronzada das esperanças que de maduras estragaram, porque do futuro que não sabemos, tenho certezas funestas que se confirmam a cada promessa furada e laivo de esperança que soletras solenemente e num fracasso retumba, explode, bate um tambor de mal caratismo.

Do ódio que tomei de todos os seus gostos, não me culpe. É mero ciúme. Na devoção que dedicas aos seus ídolos, no gosto doce que permeia sua saliva enquanto tece os elogios que remete tão certeiros a tudo que lhe é caro, sinto o vapor da exclusão. E que artíficio mais infantil que a recusa, os olhos fechados e a negação posso adotar? Negaceio seu mundo, tentando apagar qualquer resquício que ainda habite meu mundo. Então, reverbera em inútil exercício de estoicismo: você retorna. Vem em silêncio, vem em estardalhaço, vem com a puta-que-pariu, não me importa, você vem. Abrindo janelas, abrindo pústulas, deixando escapar pus e sangue do eterno combate que minhas resistências internas têm a você.

Não sei se faz parte de minha eterna devoção querer retirar do seu ombro unicamente a culpa. Jogo para cima dos meus quando admito que busco a você, quando empunho a faca, enfio e giro. Procuro, anseio, desfolho, corôo de alvíssaras e busco até mesmo todos os sinais de tua rejeição. São os tapas no meu rosto, os cigarros apagados no meu braço, os espinhos encravados pele adentro, os cortes cujas cicatrizes não quero que se vão, porque são você.

De cada ato mecânico do restolho de religião que ainda reside sob meu peito a todo o tempo me lembro dos dedos que percorrem lépidos, intrépidos, desbravadores cada uma da contas do rosário. Numa volta completa retornar ao mesmo lugar. Num conjunto de orações retornar ao mesmo lugar. Duzentas, trezentas voltas e retornar ao mesmo lugar. Assim é você, somos nós, sou eu. Que das religiões mecânicas, você a que mais me consome. Até o ponto sem retorno.

The Optimistic - 00:03:00 1 comments


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domingo, 19 de novembro de 2006

"Bullet With Butterfly Wings".

E a lição do dia vem na voz de Billy Corgan:

"Despite all my rage I'm still just a rat in a cage".

The Optimistic - 23:57:00 0 comments


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sábado, 18 de novembro de 2006

As pedras não falam

Júlia se suicidou há dois meses. Dizem que com uma ponta da corda no pescoço e a outra no ventilador. Júlia, repito, se suicidou. E daí? Júlia, júlia, julia. E não era novembro, quando tudo passa tão desapercebido e corriqueiro. Júlia se suicidou e era setembro. Mas eu pergunto: e daí?De nada me adiantou seu suicídio. Já é novembro e eu nem sei que dia aniversaria morte tão trágica. A culpa não é minha e em setembro a notícia de sua morte nem mesmo me crispou os lábios. Após tudo, os dias continuam os mesmos. A mesma coisa do mesmo novembro de sempre.

Como todos os anos os dias têm passado iguais e impressoais. Uma série de telas transparentes: sem respingos de tinta, cores de sofrimento ou súbitas explosões de prazeres cotidianos e citadinos. A mais completa aridez que nem poderia conceber caso me fosse descrita.

Por vezes, um mergulho ocasional por entre os parágrafos de um qualquer, uns gingados meio duros, meio tortos por entre dissonâncias do Velvet Undeground. Quem sabe ao final do dia um cigarro com os braços apoiados na janela, sentindo a alergia alegre dos barulhos de um mundo que me ofende cada vez que se recusa a parar e contemplar comigo. Comtemplar o quê eu não sei, mas quero que ele pare.

As garotas nuas e seus telefones (há também os garotos), as pílulas coloridas (as balas), as garrafas emborcadas (já esvaziaram há tempos), os amigos de plástico das conversas de brinquedo, a simpatia das conversas de elevador, a simpatia dos "bons dias" que enxergam minhas olheiras, as unhas que vão embora e os volumes atrasados que ainda nem tirei do plástico, a solidão em suma.

Consomem-se as horas em margaridinhas, borboletas, maçãs meio murchas, mosquitinhos sem asas, eletrodomésticos arrebentados, letras de músicas obscuras, eu de cuecas pretas no sofá vermelho. Estático frente à TV, pensando "que porra de calor".

Acho que perdi o ritmo do suíngue, o balancê do samba, a batida da guitarra. No desespero final, talvez eu aceite comer sem fome, apanhar por pouca coisa, dar um beijo sem amor, tirar uma foto fora de foco, rabiscar o caderno velho e até aceitar esmola sincera.

Ontem, dei por mim sentado na calçada. Calça jeans, camisa verde e o casaco preto. Alisava as pedras da calçada."Fragmentos da cidade". Achei graça. Achei que ia dar umas voltas. Umas duas cervejas, mais uns três cigarros, menos alguma coisa no bolso, até sexo sem camisinha. Acabei sentado na calçada. Fragmentado, esparso, tão espacializado quanto os outros arremedos de solidão, alisando as pedras. Elas, também fragmentos. "Fragmentos de uma cidade". Achei graça.

Sentado na calçada vi um colega de escola. Coisa de terceira, quarta série. Sei lá. Olhei meio com pena, meio com assombro. Sei lá. Virou um desses meninos que aos vinte, vinte e alguma coisa andam por aí a espera da morte e nem mesmo sabem que esperam esse hálito quente. Vivendo de ruminar o capim cotidiano ou mordendo um naco de pão enquanto assistem o circo do domingo. Quem sabe, daqui há uns três anos se casa. Uma vida meio assim, meio mais ou menos.

Então, alvoreceu doendo lá no meu íntimo: e qual a diferença? Sentado na calçada, também esperando a morte aos vinte, vinte e alguma coisa. Seria eu? Alvoreceu doendo essa idéia. Ou será que a ciência disso me faz diferente? No final, ali, entre as pedras, os garotos de vinte, vinte e alguma coisa que pasasvam, o assobio do vizinho, o vidro que rachava na bola dos moleques, dei de ombros: e daí? Ruminei e aceitei o capim boca adentro como se fosse transitório, provisório ou paleativo. Mas eu sei que o capim volta.

Entre as pedras que alisava havia gramíneas, capim, matinho, erva-daninha, restolhos de mato, qualquer porcaria assim. "E quem limpa entre as pedras? - pensei com urgência. Júlia não esperou que limpassem por entre as as pedras, fez por si mesma. Não esperou os desconhecidos da terceira pessoa do plural. Júlia...

E não quero enganar a ninguém: nada Júlia tem a ver com isso. Sua estrela cadente, seu meteoro de gelo, sua galáxia moribunda, seu cinturão de asteróides aleatórios, nada alterou minha órbida da previsibilidade monótona.

Júlia se suicidou. E daí? Continuo fragmentado, continuo esparso, continuo sentado na calçada entre as pedras e o capim. E na minha inércia, quem retira o capim? Estou entre as pedras. E as pedras nem mesmo falam.

The Optimistic - 12:28:00 0 comments


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sábado, 4 de novembro de 2006

Bolo de chocolate, margaridas, sofrimento e até pipoca velha.

Inferno, inferno, inferno. A hora não passa. Maldita chuva. Merda de trânsito, em merda de cidade. Anda logo. Desgraçada, já vai me fechando. E droga de chuva, deixa as coisas ainda mais malucas. Essas luzes são borrões. Mais luzes, mais sinais, mais carros. Tanto mais. Tanto tanto. Cidade desgraçada.

Angelina. Ela precisa de mim. A hora não passa. Na verdade, nem importa se ando dez, vinte, trinta quilômetros... Rodo e volto ao mesmo lugar. Rodo e rodo e rodo. Os mesmos pontos, frente aos mesmos botecos, até os bêbados são os mesmos. Odeio esse "im". Chopim, sambim, cervejim, malamdrim. E eu fudidim nesse onibusim de merdim.

Sai da frente! Quer morrer!? Só me faltava um acidente agora. Melhor nem pensar que puxa pra cá. Angelina... Cadê você meu amor? Você eu sei onde está. Quem não se sabe onde está sou eu. Você tosse, Angelina. Eu sinto daqui. Eu vou chegar já, já. E vou pé-ante-pé que é pra não te acordar. E vou levar o meu jantar, que é pra não te irritar. "Eu vou estar lá pra você, meu amor. Eu vou fazer, vou ser vou acontecer". Era o que eu dizia. Mas onde estou eu? Nem eu sei.

Já nem brigo mais com você. Sei do seu bolo de chocolate, Angelina. E entendo o que ele sempre quis dizer. No começo, a gente brigava porque insistia para o outro pegar o último pedaço: "Vai você, meu amor, que pra mim já passou do ponto". Depois a gente brigava porque os dois queriam: "tu já comeu demais, minha vez". E agora, Angelina? - Puta merda! Só tacando a mão na buzina! - Mas, sabe, o bolo fica lá. É indiferente. Vc já nem quer saber se eu comi ou se eu gostei.

Você precisa de mim, mas nem sabe que precisa. Sou eu que vou cobrir você quando a tosse apertar. Sou eu que vou te dar o banho quando te encontrar com a camisa suja do vômito depois das duas garrafas, sou eu que vou vou atrás dos teus cigarros quando eles acabarem. Porque, senão, quem não dorme sou eu.

Quando foi que o seu sonho acabou, Angelina? Porque o meu ainda continua. Foi quando vc entendeu errado e - Que barulho é esse, meu Deus? E tantos gritos? Olho para trás e vejo muitos em pé. Na primeira esquina paro o ônibus e me levanto para ver. Seria melhor ter continuado e fingido que nada havia. Desculpa, Angelina, mas hoje você dorme sem mim.

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Desfolhava as pétalas das miúdas margaridas. Arrancava as folhas brancas e espremia os miolos amarelos. Inundava o chão do ônibus com um pequeno oceano alvo. Não havia tormenta nesse mar. Não havia frieza naquelas águas, apenas repúdio. Esmigalhava mais um miolo.

A cabeça pendia para trás e se escorava na tubo da cadeira. Margaridas, terrores, o passado, um dia a mais, outro a menos. Margaridas. O pasado. Já não usava camisas curtas; todas as suas mangas escondiam seus braços, pensava assim esconder seu passado. Chovia e as cicatrizes ardiam com cada gota. Ardiam cicatrizes que lembravam seu passado ausente em margaridas.

Cada frustração um corte. Cada abalo uma cicatriz. Cada tristeza, agora, uma margarida. As margaridas não encaixavam na história. Não faziam parte da lógica dos seus planos, mas passaram a fazer. Cada dor era mais uma desfolhada, cada miolo amassado, menos uma cicatriz que lhe doía. Em dias de chuva, chuva com vento, batia um frio que meandrava as mangas das camisas longas. Ardiam-lhe as cicatrizes, ardia em vento seu passado.

Seu belo rosto escondia todo o mais. Um desses rostos que enuviam o restante. Apagam a cena, obliteram o enredor. Não, das camisas longas não se sabia suas cicatrizes e, por conseqüência, suas dores pretéritas. E apenas muito depois lhe observariam as mãos, sempre com um miolo amarelo, um restolho de beleza, um resquício de uma vida breve, encerrada na completa nudez de pétalas.

Já não havia mais margaridas, apenas os miolos esmigalhados. Um tiro, um estampido, sangue no chão, bem a sua frente. Os miolos amarelos se juntam ao oceano de branco tremulando ao chão. Seu pensamento não vagueia para lugar algum, apenas para sua carteira. Mão no bolso, segundo compartimento, atrás da contracheque de setembro. Calmamente baixa os olhos e respira aliviado. Goteja sangue num filete do seu braço esquerdo.

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A pequenina ainda soava sua voz na cabeça dele. "Vc acha que criança não sofre?". Tique-taqueava distante um relógio que ele desconhecia o som. De dentro do ônibus pouco lhe chegavam sons. Entorpecido, enuviado, afogado, abarratado, enfastiado. A garota ainda fazia sua voz na cabeça dele: "criança sofre também". Se perguntava muito, se perguntava demais, se perguntava mais até do que lhe permitia sua fé. Perguntas. Nenhuma resposta.

Se arrependia de sua inocente brincadeira, assim pensou, então. Através das gradinhas de madeira viu a pequenina ali sentada, esperando na fila. Uma linha imaginária passava pela estatura dos demais a aguardar por uma confissão. Essa linha descia em determinado momento e vinha encontrar a garotinha. sete, oito anos, inferiu naquele momento. Que faria ali? Queria confissão? Determinou-se a levantar e pedir que saísse, fosse procurar a mãe, comprar pipoca ali na frente, ir beber água, acompanhar Irmã Lucinda. QUe saísse. Desistiu. A curiosidade pronunciou-se certeira.

Minutos depois ouviria da boca dela a razão para a busca por ele. Conforto. E não apenas isso: respostas. Mas ao virar-se e sair caminhando, com poucas respostas, o maior legado da garota foram perguntas, que até agora ele se fazia. E já duvidadava até da eficácia do que dizia aos seus fiéis. E duvidava até dos caminhos tortuosos por onde se fazia retílinea a vontade Dele. Era a dúvida, era perguntas.

"Crianças sofrem", pensava consigo. Das suas capacidades nunca julgou estar retirar o sofrimento. Era necessário. E assim vinha fazendo, mas nada como aquilo. "Criança sofre", não cansava de se repetir. E preparava para mais uma vez recitar seu mantra, quando um tiro, estampido, sangue a sua frente. Seu rosto crispava em horror. Fez o sinal da cruz e iniciou: "Pai nosso que estais no céu"...

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Era pipoca velha. Era guaraná sem gás. Era o batom já sem brilho, as unhas roídas e o sapato que insistia em rasgar o topo do calcanhar. Era o desalinho, era o fim de mais um dia sem graça. Era o cotidiano arrastado, a vida comum que perde o brilho cada vez mais. Era o metal sem polimento. A falta de graça em essência.

Pedia desculpas com o olhar, pedia perdão ao passar, pedia licença para respirar, pedia tanta coisa para tantos outros verbos. Era mais uma dessas mocinhas que andam com vergonha por aí. Ela comia pipoca. Velha. Ela sentava na janela, que era para não ter de dar licença a ninguém quando o ônibus lotasse. Ela abaixava os olhos para não ter de cruzá-los com ninguém.

Então, veio vindo ele. Quietinho, sem arrastar os pés que não é de bom tom. Veio vindo ele, quase chegando, quase querendo, quase pedindo. Veio vindo ele. Uma vida no gerúndio. Acontecendo, sendo. Sem brilho também, mas ele vinha vindo para ela. E ela nem reparou que ali ele se dispunha. Olhava para fora, enxergava o brilho dos faróis no respingo da vidro. A janela era sua posse, seu domínio, sua visão para o mundo em mais um dia do banal arrastado.

Na sua vida de gerúndio ele continuava a acontecer ali ao lado dela. Acontecia para dentro. Turbulavam as águas de suas idéias. Sua vida apoteótica era acontecimento. O fim não poderia ser fechado, resguardado, encerrado em si. Nâo tinha vocação para o umbigo. Era ali.

Um tiro, estampido, sangue no seu corpo. Ele agora deixara de acontecer. O cheiro de pólvora saía da sua mão e espalhava pelo seu corpo. Ela de olhos bem abertos não olhava pela janela: olhava para baixo, para o seu lado. Seu calcanhar já não sentia dor, seu desalinho não era mais notório, seu rosto já não estava mais entorpecido. Salpicado em sangue, seu rosto era horror.

The Optimistic - 13:41:00 0 comments


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Eu.

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