the optimistic

         (living in a glasshouse)

sábado, 28 de outubro de 2006

André queria ser gado.

André era estéril. Médico algum havia lhe dito isto. De qualquer maneira, nunca havia perguntado coisa alguma - como bem era de se esperar de seu espírito. Talvez, até tivesse a capacidade de ter filhos, e assim se diz apenas pelo conteúdo de seus líquidos e da saúde de seu corpo. Concretizar a ação se estende por corredores que jamais lhe seriam permitidos cruzar.

André possuía uma vida estéril. Não que lhe faltasse viço nas coisas que fazia; não havia nem mesmo o que ter viço. Sua vida era de permanentes carências. Carências materiais não lhe perturbavam e, de fato, não lhe acometiam. As carências se desenrolavam na completa inércia que lhe suscedia o passar do tempo. A inércia era o movimento estúpido do ir e vir dos carimbos que manuseava. Era a inércia do caminhar despreocupado por ruas que duzentas, trezentas vezes depois, lhe pareceriam tão estranhas e indiferentes quando dos primeiros passos. Era uma esterilidade completa de acontecimentos, situações e pessoas. Estéril, pois não crescia doer, não crescia alegria e, por fim, não lhe crescia nem mesmo a angústia.

No seu apartamento de sofás vermelhos, caminhava em silêncio, escutando barulhos de todos os outros lados. Comia sem fome, rodeado por famintos. Dormia como a obrigação imposta a todo ser humano, pois o sono nunca havia lhe rodeado de prazeres, tampouco era fonte de frustração. Seus banhos mera formalidade para com o corpo. Não reconhecia a si, nunca tivera intimidade com sua pele. E de sua consciência diria-se nada, pois do nada, elocubra-se nada.

Certa vez, apareceu uma lagartixa morta sobre a mesa, bem à frente do seu caderno sem capa. Nâo tinha nojo. Não tinha apreço, piedade ou mesmo irritação. Do click da caneta, sempunhou a ponta que escorregou do acrílico azul. Começou a apertar a barriga do bicho. E mesmo do longíquo outro lado da caneta, sentia que lhe expremia os órgãos, sentia que arranhava-lhe a pele, sentia que a caneta deslizava imponente, sentia. E era coisa que de tão rara já lhe parecia extraordinária, que de tão inimaginável se imbuía de uma complexidade atormentadora. Fincou a caneta na lagartixa e forarm-se as duas - acrílico e tecidos mortos - para o lixo. Era mais do que conseguia suportar.

Na xícara do seu café, queimava os lábios e até a língua. Acabrunhando olhava para a xícara. Era desconhecido sentir o calor exasperante. Sentado ao balcão, vinham ruídos, vinham fragmentos de vidas que cruzavam a sua - e ainda que a recíproca não fosse verdadeira, elas o tocavam.

Levantou-se do café e foi andando por aí e por ali. Nâo conseguia parar de sentir. O mundano vulgar, circundante, áspero, intransigente, assustador lhe tocava e ele, passivo, sentia. Até mesmo o sangue que agora lhe descia lábios abaixo, saindo do nariz, era sentimento; era afago de um mundo que sempre fora dormência.

O que sentia era coisa, objeto não-identificado, pedaço de si, pedaço de mundo, pedaço de consciência que ia brotando e crescia. André não era mais estéril: o que sentia era o que crescia, era consciência entrando em sua cabeça. Um parto às avessas, o primeiro nascimento em sua vida.

Mas o sangue escorria por seu nariz, rasgando sua boca em duas metades; era doloroso. André queria voltar à dormência. Queria a esterilidade de ser coisa, de ser gado, de ruminar uma vida de sabão. Vida que se diluía na água, sabão vagabundo que não espumava. Era tarde. Sentou chorando e de nada adiantou: agora o mundo era água que crescia no seu rosto, descia salgando o sangue e aguando a hiperrealidade da dormência.

The Optimistic - 08:07:00 0 comments


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domingo, 22 de outubro de 2006

Fragmentos de um Final

O apartamento ficou mais vazio. Sei que poucos créditos vai me dar por essa afirmação. Até porque as únicas coisas que saíram daqui de dentro (além de você) foram aqueles quadros, trazidos por você. Ainda assim, fica uma coisa assim, meio assim. É que quando você veio para cá isso de morar sozinho foi pulverizado e a alergia à solidão foi levada para longe com aquele vento de julho.

Odiava os quadros, mas eram seus. Depois que você se foi levei uns três meses sem conseguir tocá-los. E lá veio você com uma paciência de Jó para levá-los. Nem pedi desculpas, mas mesmo a sua presença aqui não facilitava ajudar a tirá-los. Agora ficam umas marcas, uns quadrados quase brilhantes no lugar deles. Foram três meses e nem a poeira eu conseguia tirar. Ficam esses quadrados. Olhando feio para mim e acredito que lá ficarão até a poeira tomar conta do seu espaço.

Medo desses putos quadros, porque eu queria evitar você. Mas não deixava de ouvir Elis, porque eu sei que você gostava. E também deixei uns quatro meses os meus discos de lado, porque você odiava a todos. E semana passada voltei a eles, porque fazer uma transgressão no que você odiava é quase como fazer você sofrer.

Não tem dado muito certo. As lembranças que vêm eram só de todas as tardes que a gente passava deitados no sofá vermelho fazendo nada e pensando em tudo. Lembra do nosso fusca branco? Aquele que íamos comprar? Conversível? Para a gente andar num dia de inverno com a capota abaixada. Uns casacos grandões, para eles esvoaçarem feito um filme bonitinho. A gente só brigava quando de escolher a música. Mas no final eu sempre acabava cedendo, pra não te ver de cara feia.

O fim parece tão disperso. Tão fragmentado e encerrado em si. Um umbigo grande em que se esconde só o que eu sinto. "Não foi nada", você me dizia enquanto continuava a escrever as suas aulas. Colocava suas mãos sobre as minhas e não levantava os olhos dos seus papéis. Ficava eu sentado ali, olhando pra você. Sentia-me como a criança humilhada que tem vergonha de chorar. Só que eu chorava. Você se limitava a dizer "não foi nada". E colocava sua mão sobre a minha. Sempre a esquerda, porque a direita não parava de escrever.

Voltei à Elis. Ela fica cantando o refrão de um bolero. Acho a coisa mais bonita do mundo. O sofá continua tão vermelho quanto era antes, mas agora é até mais bonito. Queria voltar aos meus discos. Não dá. Melhor voltar ao que lhe escrevo. Mas acabaram os quadrados brilhantes e não sei se quero continuar escrevendo pelo resto da parede. Voltei a morar sozinho, mas esses quadrados sempre serão o seu espaço.

The Optimistic - 01:38:00 0 comments


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sexta-feira, 20 de outubro de 2006

"Eu te odeio".

Primeiro teriam sido os olhos. Ou, ao menos, assim gostaria eu de poder dizer. Não foram. De sua cabeça baixa pouco conseguia divisar além do seu cabelo num desalinho grotesco, uma mistura de engordurado com a água que a chuva lhe deitava cabeça abaixo. Não, não podia ver seus olhos, menos ainda a sua expressão. Então, não sabia o que esperar de sua repentina guinada em minha direção.

Chegou-se em silêncio e postou-se à minha frente. Jà me perguntava o que desejava, já me consumiam os horrores de mais uma discussão, já ensaiava um ponto final antes mesmo do primeiro dedo em riste que ele levantaria (como em todas as outras vezes), já me entorpecia de um silêncio que, em muitas das vezes, era a minha mais eloqüente resposta aos seus arroubos de violência, já desistia de vencer antes mesmo de principiar a contenda.

Levantou o rosto e pude ver do estrago que era feito. As linhas marcadas, os sulcos rodeando sua boca, o nariz crispado e a barba que rasgava seu rosto em pequenas linhas tão desprovidas de harmonia. E seus olhos. Ausentes de qualquer expressão de raiva, não continham nada. Opacos, flutuavam como duas massas inertes naquele rosto também vazio e desprovido de qualquer cor.

Por duas vezes abriu a boca em intuito de dizer algo, mas nem medo parecia ter. E do meu medo fez-se a irritação. Irritação pelo tempo que me tomava, pelo desatino em me confrontar, pela afronta em vir me falar, pela estupidez em me procurar. Aquele silêncio era bolha-de-sabão, mas não estourava tão fácil assim. Era frágil em sua construção artificial, mas não mesmo estourava fácil.

Resolveu falar. Como um apaixonado as avessas, confessou todo o seu ódio por mim. Enumerou todas as razões para desejar-me o mais potente dos males e as piores das tragédias e disse que até o faria se não o impedisse o bom senso (como se esse ainda ali residisse). E ao final me pediu desculpas. Pediu-me desculpas por um ódio tão grande. Porque isso não devia fazer bem a mim. Muito menos a ele. Pedia desculpas, mas que nem assim conseguia deixar de me odiar.

The Optimistic - 21:28:00 1 comments


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segunda-feira, 16 de outubro de 2006

21 gramas

Sabe o que ta na minha cabeça agora? A primeira fala do Sean Peen em 21 gramas.

"So this is how it ends: pathetic".

: (

P.S.: 21 grams é, sei lá, meu segundo filme favorito. Nem precisa dizer que fiquei salivando qnd vi o trailer de "Babel", né?

The Optimistic - 21:24:00 4 comments


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sexta-feira, 13 de outubro de 2006

Diálogo entre o simples e o complexo.

- Não me sorria assim. Nâo há justiça nesse trato tão amável. Que posso eu fazer? Só me resta pedir: não me sorria assim.
- Do meu sorriso cuido eu, que sei o que me dói sustentá-lo radiante. OU será que já te ofende até minha alegria?
- Não entendo e ainda me agrada seu sorriso. Disso tenho medo.
- Do meu sorriso?
- Nâo... Do que me faz o teu sorriso. E, claro, do escárnio que traz.
- Escárnio?! Não se lembra que ainda há pouco coloquei sangue pela boca? Que forças teria eu para o escárnio?
- Jà falei que não entendo. Poucas são as relações claras; menos ainda essa sua vontade de sorrir quando tudo o mais já carrancou e dos sorrisos alheios só restou o olhar da reprovação.
- Do sorriso ficou a reprovação? Relação estranha...
- Não me venha você exigir lógica no que sumarizo, nem no que vejo. Simplesmente que não quero mais olhar o seu sorriso. Não é justo. Simples assim.
- Lá vem você e sua perversa simplicidade. E se quiser eu fazer complexos os meus pensamentos? Meu sorriso não é fruto do simples. Fosse assim e eu já teria enferrujado no ranger dos dentes; preciso da complexidade para concluir que ainda posso sorrir.
- "Ainda" pode sorrir?! Espanto e admiração: sua vida já resvalou para a vala dos que repudiam da redenção?
- Estupidez sua perguntar. Há muito sabes que sim...
- E sempre odiei esse estandarte de sofrimento que anda a balançar por aí. Sempre foi um desespero por atenção. Não sabe o que será do almoço. De todas as reticências prefira não estabelecer valor, que esse discurso de "oh, a vida é uma merda" já passou do ponto de ser.
- E você acha que é questão de atenção?
- Que mais pode ser?
- Negar que possa eu sorrir não é?
- Não! Seria decência sua, simples assim.
- Você e a simplicidade.
- Você e o complexo.

The Optimistic - 21:50:00 0 comments


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quinta-feira, 12 de outubro de 2006

Sempre acontece nos dias nublados.

Não é repente atmosférico, nem é ironia da vida. É só a pura coincidência. Que a verdade é que já li mais que deveria e ousei pensar mais do que poderia, então já não me cabe mais elaborar teorias conspiratórias intrincadas ou pensar em intervenções divinas no cotidiano banal dos que insistem em sentir. O fato é que sempre acontece nos dias nublados.

A coincidência não retira a ironia que acabei já por negar na primeira frase. Está nublado e não há espaço para óculos escuros. Está nublado e sempre há a dúvida quanto a vindoura chuva ou não. Está nublado e talvez esteja frio. Está nublado e ainda que quente, sempre dá vontade de tirar o casaco do armário. Não importa, está nublado.

Não há espaço para os óculos escuros. Os olhos marejados, avermelhados, afogueados, desolados, rebaixados não possuem esconderijo; se desnudam e passeiam ao léu. O dia está nublado e não há nada a fazer.

Também, o escuro do meio-dia sob nuvens faz a temperatura cair muitos graus abaixo do que realmente está. Cada vírgula dita, cada ponto colocado, cala palavra expressa (e, principalmente, a não expressa) se revestem de um frio que não possui explicação. É o tempo nublado, nos resta suspirar.

Das constatações piores, é esbarrar em pequenos goles de alegria por aí. Pequenas feições risonhas e alguns dias ensolarados iluminando umas poucas cabeças. Uma alegria sem-vergonha que ofende a tristeza de um dia nublado.

E no final das contas a aleatoriedade ainda vem brincar comigo, vem me fazer escutar "Who Loves the Sun". Eu nunca amei o sol. Hoje, ainda menos...

The Optimistic - 02:27:00 0 comments


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sábado, 7 de outubro de 2006

Sobre quando esvaí feito leite no copo.

Era de uma nobreza ofensiva minha postura desleixada: sentado a alguns passos da janela, observava a água que a chuva deitava sobre o jardim. Os respingos transparentes que molhavam a jarra esquecida no parapeito, tempos mais tarde, iriam conferir um gosto estranho ao leite. Na minha preguiça, pouco me importava, talvez porque detestasse leite, talvez porque alguns passos da janela era longe, muito longe.

A indolência que as horas depois do almoço conferem a qualquer um se apossava incoveniente do meu dia. Era uma convidada indesejada que não se furtava de colocar os pés sobre a mesa de centro. Já me cerrava os olhos num ato incotido quando o telefone tocou sua voz. O timbre da campainha me era muito familiar para ser alguém que não você. Então, sabia eu já de antemão.

Nesses momentos de nervoso largo a anestesia é completa e a ressaca passa longe da mera amnésia; é só vazio o que resta depois que o torpor se esvai e volta a normalidade. Sinceramente, pouco me lembro do que você disse e tenho minhas dúvidas se articulei algo mais que meros "hum". Fazer o quê? Foi no largo do nervoso que perdi a vontade de sua voz, que perdi a vontade de suas palavras.

Não adiantou. Depois da primeira onda, veio a segunda. Sim, você tornou a ligar. Nova sensação de anestesia completa. E supresa: ressaca alguma dessa vez. Um riso quase nervoso, um cigarro quase a me queimar os dedos, suas palavras quase em cadência meticulosamente planejada, seu suspirar quase calmo, e tantas outras coisas que apenas se realizaram no "quase".

Telefone no gancho vi-me outra vez imerso no vazio desolador produzido pela chuva. Esse puta aguaceiro parecia retirar o ar das paredes, o ar dos espaços vazios, o ar do meu pulmão e parecia querer me afogar em pleno leito seco em que se convertia o lado de dentro em tempos de chuva forte.

Pensei em caminhar nervoso por aí, brincando de acender o cigarro embaixo da água. Pensei em quebrar os espelhos com uma tesoura cega, só para justificar todos os anos de azar. Quem sabe chutar um gato preto ou gritar um "puta-que-pariu" mais alto que a boa decência poderia permitir? Pensei até que poderia ser mais forte que minha vontade e te ligar. Agora, então, entendia porque dessa vez não havia ressaca: ainda estava imerso na ebriedade que o nervoso me legava.

Aos poucos esvaí como areia entre aos mãos. Escorreguei bem devagar, deslizei sem viscosidade, cisalhei entre espaços pouco receptivos a mim. Emborquei feito um copo, me escondi feito coelho na toca. Ou numa cartola? Afinal, ainda esperava que de lá me resgatassem já que sempre foi assim: a espera pela atitude terceira. Então, me lembrei do leite na janela e vi a água escorrendo pelas paredes da jarra. Uma náusea desavergonhada me sombreou o rosto. Sempre fica um gosto estranho. Tão estranho quanto o do leite.

The Optimistic - 01:51:00 0 comments


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Eu.

Philipe

Campos - RJ

Ficção e não-ficção.


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