the optimistic

         (living in a glasshouse)

sábado, 30 de setembro de 2006

"Só Alberto me entende".

Sentada de costas para a janela, pouco conseguia divisar do seu rosto. A sua frente, tentava acostumar minhas púpilas àquela estranha iluminação. Enxergava sua silhueta e umas poucas cores me eram reveladas. Sabia que vestia vermelho, sabia que usava saias curtas e sabia que fumava. Afinal, era impossível não enxergar a fumaça e o movimento apressado de suas tragadas. Havia urgência em cada levantar de mãos, em cada suspiro descompassado em relação à sua voz e seus movimentos. Havia urgência em toda ela.

Havia sua voz rasgando o ar, esfaqueando cada centímetro que nos separava, burlando a intransponibilidade que a pouca intimidade legava ao nosso contato.

Sentia náuseas. O ar estava estranho. Não sei definir ao certo; talvez a fumaça, talvez o resultado das noites insônes. Um pouco do cheiro estranho que insistia vir da cozinha? Não sei. Parecia existir uma estranha simetria entre as coisas que me contava e toda a desorganização de seu apartamento.

Levantei-me e comecei a transitar inquieto. MInhas intervenções na conversa se limitavam a "sim" e "não"; por vezes murmuros de aquiescência, não tinha o que falar.

Já me perguntava por que havia aceitado ir até lá. A promessa de sexo fácil? Cínico!, rio segundos depois da minha inocência quase pueril. Se não fosse isso que mais seria? Algum acesso paternal frente a desolação tão aguda que emanava daquela garota? Confesso que aquelas coxas haviam me perturbado ao ponto de ser necessário dispor o jornal no meu colo. Confesso que seus cabelos lisos em desalinho, seu batom já com jeito de antigo e o apesar de tudo seu doce perfume me atraíram.


Da janela via a manhã de segunda-feira sob um céu bruxuleando entre o cinza das nuvens e a claridade acre que o caminhar das nuvens por vezes permitia escapar. Meu nervoso aumentava. Queria ir embora, queria fugir da fumaça do seu cigarro. Horas antes havia pedido licença para acender o cigarro. Consenti. Afinal, que direitos teria eu de lhe proibir o cigarro? Agora o som de sua voz me perturbava. Seu tom desesperado me remitia a uma necessidade de se vitimizar. Sua saia curta transparecia uma vulgaridade que me ofendia. O rubro do esmalte (que conseguia divisar ainda que na penumbra) me soava simplório.

Quando já me comia o fígado os líquidos dos maus humores tocou meu telefone. Vi ali minha chance. Ouvi pacientemente a mocinha do telemarketing e ao final acrescentei um "já estou chegando". Despedi-me apressado e escusei-me por precisar ir. Nada disse. Levantou-se e tentou me beijar. Num impulso virei meu rosto e recebi um beijo na bochecha. Fomos à porta e enquanto abria retornou às suas reclamações que por pouco já me tornavam habituais. Ao sair ainda pude ouvir dizer: "Só Alberto me entende".

The Optimistic - 23:10:00 0 comments


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domingo, 24 de setembro de 2006

Estouro de bolha-de-sabão.

Controlava meus atos uma calma que aqui nunca residiu. De certa maneira, a cadência de meus atos transparecia indiferença que, aqui, também nunca residiu. Na verdade, a indiferença que um observador distante poderia me atribuir se configurava injusta; deveria então dizer que me absorvia uma naturalidade, até uma banalidade em meus atos, nunca indiferença.

De pé, ao meu lado, se lhe roíam os brios e corría a paciência uma pressa voraz. Meticulosamente continuava meu trabalho. De pé, os dois ao lado do antigo bebedouro de pássaros se arremetiam para realidades diferentes, expectativas as mais díspares. Meticulosamente continuava meu trabalho. Meticulosamente continuava meu trabalho.

Entortava o arame procurando vencer toda resistência do metal tão vagabundo. Resistência pequena avolumada pela pequenez da amostra. Queria um círculo com dois, talvez dois e meio centímetros de diâmetro. Mudei de idéia, queria dois círculos; postos lado a lado e seguros pela mesma haste. Retornava a uma infância que só os "crescidos" conhecem, brincava de esquecer o jardim e ignorá-lo impaciente ao meu lado.

Questionado quanto a demora, respondia-lhe apenas que necessitava de dois centímetros de diâmetro. Virou-me as costas, atirou a guimba do cigarro no chão e apontou-me o dedo; reclavamava da "porra" do meu perfeccionismo. Despreocupado, sorri eternecido. Sempre tive a convicção que a melhor resposta a uma grosseria é a maior educação.

Não entendia muito bem os princípios que guiavam toda a cena. Os círculos postos lado a lado serviriam para após o merguho no bebedouro (agora respingado com detergente) transformar o líquido num caleidoscópio etéreo a flutuar ao sabor do vento. Bolhas-de-sabão, se assim for preferido. Cintilavam peroladas as esferas, desfaziam-se rápidas sob o sol, sua existência era efêmera, seu efeito sobre mim era longo.

Não pude deixar de observar, talvez com certo desapontamento, que não conseguia duas fileiras de bolhas: mescladas, as bolhas consistiam num turbilhão único e espesso. Pensei no ridículo da situação: eu, "homem feito", desapontado com as bolhas. Os paralelos que traçava, as observações que apareciam em minha cabeça, as filosofias vagas e tão profundas quanto as discussões de botequim giravam dentro de mim.

Senti-me meio bolha-de-sabão, viajando ao léu, sem saber onde aportar, sem saber como chegar. Senti a vida apressar-me como ele me apressava, senti o vento assobiar rente às minhas orelhas, afirmando verdades, perguntando questões que só a mim diziam respeito. Senti-me meio colorido, dotado de um cromatismo imperfeito, mas rico em possibilidades que não se sobrepujam, porque todas são ineficazes para tanto. Apossava-se de mim uma sensação de transparência, atenuada pelo vaguear das cores do caleidoscópio. Senti-me meio assim, meio mais ou menos. Senti-me meio frágil.

Estalou os dedos à minha frente, chamando a minha atenção para o horário. Deveríamos ir. O foco dos meus olhos regressou da distância onde se aninhava. Deixei o arame sobre o bebedouro e segui atrás dele.

The Optimistic - 11:21:00 0 comments


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domingo, 10 de setembro de 2006

.there are two white horses following me.

Bob Dylan se punha a gritar por aí todo o tempo: "how does it feel?", "how does it feel?". Eu pasmo contemplava. Ta, ok, eu concordo: "No Direction Home" é mesmo vibrante. Coisa de crítico de cinema. Fazer o que? TEnho de concordar, nada mais.

Acredito que o legado que recebi depois de quase quatro horas de vídeo foi entender melhor o tal do folk. Entender o porquê de suas vozes eloqüentes, os violões baixinhos, a interpretação visceral e suas letras as vezes incompreensíveis. O folk é o espaço do verbo em essência.

Nada pode distrair a palavra. O que importa é o que eu te digo e mais: como eu digo. Esqueça as distorções, esqueça o aparato eletrônico, esqueça tudo o mais que possa digredir de contar uma história, reclamar um momento, narrar um acontecimento. Aqui, é o espaço das idéias, da emoção narrada, dos sentimentos transbordando pela voz. Voz e interpretação.

Talvez, seja um pouco injusto com o que reside fora do folk. O jazz, o blues, o rok'n'roll e tantos outros. É claro que eles têm sua emoção, seu sentimento... Mas é diferente. Lá, tudo consona junto para transparecer sinceridade. Aqui no folk as palavras têm seu espaço.

Sabe, é mais ou menos como comics e mangá. Odeio quando chamam mangá de "quadrinhos japoneses". Sabe por quê? É diferente... Simples assim. O storytelling é outro, o timing é outro, a filosofia é outra. Tudo é diferente.

Agora, no final das contas, não pude deixar de terminar pensando: "que grande filho da puta é esse tal de Robert Zimmermman". Filho da puta, sim. Mas genial.

The Optimistic - 11:54:00 0 comments


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sexta-feira, 8 de setembro de 2006

Talk Show Host.

De tempos em tempos acabo topando com algumas frases que haviam me passado desapercebidas em certas músicas. Em sua maioria frases bastante simples, mas cuja sinceridade as vezes me pegam de maneira avassaladora...

Dessa vez foi com Talk Show Host do Radiohead. Sempre adorei a música, mas confesso que nunca prestei muita atenção a letra. Até que topei com "you want me?, fuckin' well come and break the doors down".

Sabe o que é? Acontece que to meio assim: "Vem até aqui". E pior pra quase todo o mundo. Parece que já não ando me importando muito em despender esforço para alcançar as pessoas. Quer estar próximo? Então, esteja. Quer se manter longe? Pode ficar que cheio de mim já estou.

Sabe qual o problema? Diz Tio Thom mais adiante:

"wiht a gun and a pack of sandwiches, and nothing, and nothing".

O problema é acabar ficando com nada.

The Optimistic - 01:43:00 0 comments


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Eu.

Philipe

Campos - RJ

Ficção e não-ficção.


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