the optimistic

         (living in a glasshouse)

terça-feira, 27 de junho de 2006

Garfield 2

Sobre suas tamanquinhas brancas, esgueirava o corpo para levantar mais que os olhos acima da guarda da cadeira. Sua pequenez pouco lhe permitia enxergar além da aridez de cadeiras azuis que havia por ali. Já lhe observava desde fora: a pipoca nas mãos da mãe, a corrida por entre as portas de vidro, a felicidade na loja de balas...

Lá perto da última fileira sua mãe lhe mandava sentar. "Encoste na cadeira". Bem ali atrás observava com ternura a cena. Então, fui descoberto. E me vi alvo de sorrisos e, por vezes caretas. Comecei a desconfiar que seria atração maior do que o filme por iniciar.

Saquei uma bala, duas balas, já jogava fora o chiclete da terceira e nem sinal de filme. Mania de detestar esperar do lado de fora, para querer esperar já na cadeira. Agora a garotinha do alto dos seus quatro, talvez cinco anos, me era espetáculo. Assim pensava, quando na verdade lhe era espetáculo.

Vi-me ali naquela garotinha. Num tempo que ir ao cinema era tão estranho. Talvez, porque meus pais não tinham tanto esse hábito de me levar ao cinema. Desde meus, doze, treze anos eu mesmo me levo. Talvez, também, seja por isso que tanto me encantam pais & filhos no cinema. Sempre sorrio eternecido. Mais para mim que para a criança. Mas não é esse um trauma de infância. De outras coisas ela foi preenchida...

Perguntei-me então o que fazia ali. Segunda-feira, cinco horas da tarde... Eu tinha aula. E tinha matado. Abandonei seminários sobre construção em taipa e barro de pilão para ir ao cinema. Ver um desenho em companhia de uma garotinha de seis anos. Foi inevitável perguntar se eu não iria crescer. Não sei. Fosse desenho, fosse blockbuster, fosse comédia romântica, estaria lá do mesmo jeito. Não é uma questão de crescer. De crescimento necessito outro.

Senti-me então uma personagem de Clarice Lispector (puxa, que orgulho!). Aquela garotinha me fez pensar no que preciso crescer. E definitivamente não se trata de deixar de ver desenhos. Ou mesmo de matar aula. (Até porque no segundo quesito, admito ser uma doença crônica, mas já melhorei uns 90%.) Preciso crescer para minhas responsabilidades, das quais de abril para cá tenho fugido incessantemente. Sempre tendo como guarida a desculpa que "esse é um ano difícil para mim". E muito mais irá ficar se continuar a agir como se tivesse seis anos.

Começou o filme. COntinuei a ser a atração principal. Todas as minhas risadas eram catalogadas e esquadrinhadas pelos olhinhos abaixo da franjinha. Na hora da saída ganhei até um tchau. Acho que hoje, quando pensei que iria ao cinema sozinho, tive uma ótima companhia.

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segunda-feira, 26 de junho de 2006

Soundtrack

A trilha sonora. Sempre ela. O tom surge ou empalidece com seu tom. A tragédia grega acaba por se tornar um musical dos mais alegrinhos lá de volta a década de 1920, talvez 1930. Não sei, mas há horas em que o melhor, antes de tudo, é se entregar ao cliché, depois às risadas. De que adianta chorar? OU até mesmo desesperar? Musiquinhas engraçadinhas rodando por aí. A gente finge que não acontece nada demais. Fazendo uma planta enrolada, de bastão sai pela esquerda... Ao som de uma música qualquer com climinha jazzy. Cantando. Estalando dedinhos. Assobiando. E vai andando por aí. Durante a apresentação sorri e acha tudo um pouco bobo. "Que drama!". Mas no final da música sabe que vai vir a pior parte: a realidade.

The Optimistic - 09:16:00 0 comments


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sábado, 24 de junho de 2006

O filho...

Depois de assistir "A Profecia 666".

Eu: Mas, sabe... O Filho do Capeta é tão bonitinho, muito fofo!
Ela: Sério?
Eu: Huhum! Queria que ele fosse meu filho!
Ela: Mas, aí você seria o Capeta, né?
Eu: ...
Ela: AHHAHAHAHAHAHAHA

The Optimistic - 23:23:00 1 comments


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segunda-feira, 12 de junho de 2006

A amizade que perdi (sem nunca ter tido).

Cinco minutos para o início do filme. Sozinho que estava não queria passar tanto tempo sentado frente a tela apagada. Normalmente vou acompanhado ao cinema, mas por motivos adversos fui sozinho. E sabe? gosto de me levar para passear as vezes. Seja o cinema, umas voltas na bicicleta ou uma de minhas longas caminhadas. Estava contente de estar lá sozinho.

Segui meu caminho, entrei na Sala 5. Susto: apenas mais uma pessoa lá dentro. Aparência? Não reparei seu rosto. Quem era? Uma mulher. Idade? Tampouco reparei. Sabia que usava uma camisa branca e calça jeans, mais comum impossível. O que de fato me chamou a atenção foi onde sentava: exatamente onde gosto de me sentar. Fila 5, cadeiras centrais Meio desapontado me resignei com a fila posterior.

Um barulho estranho. Ela então diz: "será que vai cair em mim?!". Espantado e muito contente com o comentário me pus a tranqüilizá-la, lembrando que a sala era nova e pouco provável cairia. Ou por isso mesmo não havia ajustes perfeitos e... Risos. Ainda a ouvi dizer: "era o que me faltava hoje". Foi então que reparei que estava com os cabelos em grande desalinho, a roupa como se a houvesse usado todo o dia, os pés descalços e as sandálias no chão.

Abriu-se todo o encanto. Quem seria ela? O que teria ocorrido no seu dia? Será que o namorado a havia traído? Teria filhos? Em que trabalhava? Será que queria conversar sobre seus problemas? Meu Deus! Eu queria ajudá-la! Desesperava-me o passar do tempo (segundos) e eu sem saber como me introduzir mais. Foi então que veio a idéia de comentar do vazio da sala. Inclinei para a frente e... Chegam mais pessoas, apaga-se a luz, o filme começa.

O filme todo me torturei por não ter feito o comentário. Ignoro a razão, entretanto ela me fascinava. Estava envolvida em uma aura de mistério tão opaca que me fazia a curiosidade saltar aos borbotões. No ecrã, Uma Thurman e seu amor pós-adolescente. Blow Up e Zabrieski Point de Antonioni na tela. Será que ela conhecia Antonioni? Será que se tivesse falado antes agora lhe diria que o primeiro é um belo filme e o segundo tem uma maravilhosa trilha do Pink Floyd? Será que quando acabasse o filme ela me pediria o DVD de Blow Up emprestado? Ou um CD-R com The Zabrieski Point Complete Sessions?

O filme prosseguia e eu sentia suas risadas, seu jogar despreocupado sobre a cadeira. Percebia quandoperdia a piada. Percebia quando se deliciava com os beijos afoitos. Percebia que mais gostava quando a velha senhora judia se auto-flagelava com a frigideira. Será que ela percebeu a câmera caótica na cena do jantar? A tentativa de mostrar a cozinha ainda maior e o embaraço da situação? Será que concordaria se lhe dissesse que em outras mãos e um pouco mais de ousadia daria um ótimo filme independente?

Acabado o filme a percebi sair apressada. Nem mesmo continuou sentada a ouvir um pouco da trilha sonora. Nesse dia eu também pouco pude do meu ritual de me desligar aos poucos do filme, como se necessitasse de segundos em um fade out com a trilha dos créditos. Saí atrás dela.
A vi descer a escada e quis perguntá-la se gostou do filme. Ao menos tanto quanto eu gostei. Queria seguí-la. Talvez pegasse o mesmo ônibus que eu. Talvez quisesse companhia por serem dez da noite. Mas necessitava de ir ao banheiro e então nos separamos.

Nesse momento que percebi que não conhecia o seu rosto. E começou a me torturar essa idéia. Mesmo que rasgando-me a imensa necessidade de saber como era, já não tinha esperanças. Ainda que me ardesse a vontade de ver seu rosto, já aceitava não conhecê-lo jamais.

Lavei as mãos. Como (quase) sempre, esqueci do papel toalha e usei o jeans como tal. Segui andando já conformado com a ausência daquela face. Saí do shopping. Distraído, pegava meu casaco na mochila e guardava os óculos. Então a vi. Ainda de costas a conversar com um rapaz. Nas mãos, pude ver a chave do carro. (Será que se tivessemos travado conversas me ofereceria uma carona?). Pensei que se não aproveitasse aquela chance estaria perdida por completa a possibilidade de conhecer seu rosto. Apertei meu passo, passei ao lado dela e seu interlocutor. Dois passos depois não pude evitar e voltei meu rosto. Finalmente a conheci. Segui meu caminho agora em paz.

The Optimistic - 00:02:00 0 comments


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domingo, 4 de junho de 2006

Desinteresse-interessado

Engraçadíssima essa coisa de fingir desinteresse-interessado. Talvez, por que eu te dei um tapa na cara e você retribuiu com uma cusparada. Ficamos assim. Com uma necessidade filha-da-puta de dizer pelo menos "olá", mas o orgulho ressoando mais forte e dizendo "não". Ah, pessoinhas orgulhosas.
Então, foi necessário um primeiro passo. E aqui pensei eu que se alguém não o fizesse, o resultado seria o mesmo que perder na Mega-Sena por preguiça de ir até a loteria. Fui em frente. Será que falar banalidades num momento como esse é soar falso? De modo algum. Simplesmente que mostrei que sua cusparada foi muito pouco, pouco mesmo. Assim como meu tapa também não foi quase nada.
Entretanto, "muito pouco" e "quase nada" são adjetivos relativos. E frente a que o são assim diminutivos? Frente ao que sempre houve entre nós. No final das contas tem o resíduo daquele medo - que eu tenha levado tão a mal sua cusparada ou que você tenha se doído muito com o meu tapa. Fazer o que? "I can't pretend I don't need to defend some part of me from you". So it happens the same to you, so said Paul Banks. Amen.

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Eu.

Philipe

Campos - RJ

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